PanoraMix Especial Educação | Parte 2

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Educar para o novo trabalho, mas que trabalho?

“Um quarto dos adultos não adquiriram em leitura ou matemática competências básicas para inserção qualificada num mercado de trabalho cada vez mais globalizado e impactado por novas tecnologias. ”

É assim que começa a coluna do Antônio Góis no O Globo na semana passada.
Agora leia esse trecho da coluna do Pedro Doria no Estadão, também da semana passada.

“Um dos efeitos imediatos da revolução digital é que todos, de alguma forma, nos tornamos reféns do mesmo transtorno [a expectativa de que tudo seja respondido rápido]. E isso atrapalha nossa capacidade de trabalhar bem. ”

Somando as duas a gente constata que trabalhar está cada vez mais difícil, seja pela falta de capacitação, seja pelas constantes interrupções ao longo do dia. Hoje somos menos eficientes no trabalho do que vinte anos atrás.

Especialistas sugerem que a solução é trabalhar menos e ser mais focado na atividade ou problema a ser resolvido. Especialização e eficiência exatamente como as dos robôs que estão dominando indústrias e serviços e reduzindo postos de trabalho. Então por que se preparar para um “mercado de trabalho cada vez mais globalizado e impactado por novas tecnologias.”?
Sentiu o drama?

Tecnologia ajudando a salvar a educação

Muito antes de resolver as questões do transporte urbano, o que tem se apresentado como mais urgente e desafiador é resolver as questões da educação dos jovens. Vemos inúmeras entrevistas e iniciativas no sentido de preparar conteúdos, formatos e professores minimamente alinhados com as demandas não só do mercado de trabalho, mas também da sociedade.

Algumas dessas iniciativas foram discutidas no evento Bett Educar onde a diretora global de programas educacionais da Microsoft  pintou um quadro onde os estudantes não se sentem estimulados pois vivem em um tempo diferente daquele para o qual as aulas estão sendo apresentadas. Na entrevista que ela deu para o Inova.jor foi clara: “As escolas formam os estudantes para os empregos errados.” e há tecnologia disponível para mudar esse cenário criando estratégias e métricas de engajamento mais eficazes no alinhamento entre professores, alunos e sociedade. Leia a entrevista completa aqui.

e-books
Mas a tecnologia na distribuição de conteúdo muitas vezes encontra barreiras que não pareciam de tão difícil transposição. É o caso dos e-books que não decolaram como previsto. Segundo a edição 2017 do Global eBook: a report on market trends and developments no Brasil apenas 6,9% dos livros de interesse geral vendidos são eletrônicos o que corresponde a apenas 3,2% d faturamento das editoras.
Amplamente dominado pela Amazon, o mercado nacional de e-books cresceu 50% em relação a 2016 com o Google aparecendo em segundo lugar. Leia a análise do Publishnews sobre esses números e o mercado brasileiro de e-books em geral.

Política e educação para uma nova era

Considero um privilégio viver nessa virada de século e poder presenciar, participar, colaborar e usufruir da revolução na sociedade que está sendo viabilizada pela tecnologia, mesmo com todos os percalços inerentes a um processo veloz e intenso como esse.

Nunca achei que essa fosse uma sensação unânime pois vejo que há quem não se impressione, quem não perceba ou quem ainda não tenha efetivamente sentido o impacto real dessas mudanças no seu dia a dia. Há também aqueles que percebem, sentem o impacto, mas, mais do que negar, mais do que tentar tirar proveito das enormes oportunidades que estão surgindo, trabalham contra essa jornada inexorável. O pior é que são essas as pessoas que tentam mandar no nosso futuro.

Acompanhando as campanhas dos candidatos a vereador e prefeito para as próximas eleições, vejo que, com raríssimas exceções, seus programas e propostas não tiram proveito efetivo para políticas públicas desse momento único que estamos passando. As intenções parecem ser continuar fazendo tudo da mesma maneira, com os mesmos objetivos do século passado. Não vejo na maioria dos candidatos o olho num futuro que será muito diferente do que eles gostariam que fosse. E são nas propostas para a educação que isso se torna muito evidente, pois trata-se de um processo a médio-longo prazo que não interessa para quem só pensa nos próximos quatro anos. Empurrar com a barriga as mudanças necessárias nessa área só vai nos levar para trás.

Não vi nenhum candidato dizendo claramente que temos que mudar tudo na educação. Não vi nenhuma proposta que vise preparar minimamente o aluno para o mercado quando ele completar sua graduação. Continuam a prepará-lo com práticas e conteúdos que faziam sentido na sociedade pré-digital.

Urge darmos um salto para tentar alcançar índices que permitam que nossos futuros profissionais possam colaborar nas revoluções que irão se tornar mais globais, transformadoras e frequentes. Mas do jeito que vamos a distância desse objetivo só aumenta.

Um exemplo
Nos EUA o governo federal lançou em janeiro de 2016 a “Computer Science for All Initiative”, iniciativa que pretende oferecer conhecimentos de matemática e computação a todos os alunos do jardim de infância aos doze anos num investimento de mais de US$ 4 bilhões que responde ao seguinte questionamento colocado pelo presidente Barack Obama:

“Vivemos em uma época de mudanças extraordinárias que afetam a maneira como vivemos e o modo como trabalhamos. Novas tecnologias estão substituindo qualquer emprego onde o trabalho pode ser automatizado.  Trabalhadores precisam renovar suas habilidades para evoluir.  Estas mudanças não são novas e só vão acelerar.  Então a pergunta que temos que fazer é: ‘Como podemos ter certeza que todo mundo tem uma chance de sucesso nesta nova economia?‘ “

É disso que estou falando. Não vejo nas propostas de governo uma real preocupação de dar o salto necessário, de parar de olhar para trás e resolver os problemas do passado olhando para o futuro.

Formação e trabalho
Se os benefícios diretos e indiretos do ensino de ciências da computação não bastassem para entendermos sua enorme relevância – já tratamos disso aqui aqui – talvez um estudo da Forrester mostre isso mais claramente. A consultoria prevê que até 2025, menos de uma década, tecnologias como inteligência artificial, robôs, bots e automações em geral irão substituir 16% da força de trabalho americana enquanto irão criar apenas 9% de novos empregos. Vão desaparecer 7% dos empregos nos EUA somente por conta dessa tendência.

Enquanto funções administrativas, de logística, transportes e call-center, todas com baixos níveis de salário e especialização, serão as primeiras a desaparecer, o aumento de oportunidades se dará em áreas como monitoramento de robôs, análise de dados, especialistas em automação e curadoria de conteúdo. Você vê algum de nossos formuladores de políticas educacionais apontando que a formação dos estudantes brasileiros deva ir nessa direção?

Se olharmos com mais detalhe e esticarmos um pouco o prazo das projeções veremos que não são só atividades repetitivas ou de baixa especialização que irão ter menos relevância no futuro. Profissionais com alto grau de especialização estão começando a ser substituídos por máquinas e seus clientes nem percebem a diferença.

A família Watson
Recentemente o escritório americano Baker & Hostetler anunciou que contratou a plataforma de inteligência artificial da IBM Ross para atuar na sua área de falências onde trabalham cerca de cinquenta advogados. Ross, “o primeiro advogado com inteligência artificial do mundo” foi criado em cima do computador cognitivo Watson da IBM que é capaz de ler, entender, pesquisar e postular hipóteses antes de tirar suas conclusões, ao mesmo tempo que monitora os bancos de dados atrás de decisões que possam afetar algum caso conhecido por ele. Isso tudo em alta velocidade.

Será que a OAB e nossas universidades que despejam 90.000 bacharéis em direito todo ano no mercado (são dez bacharéis por hora) sabem disso? E se souberem, como irão (re)agir?

Escolher usar um computador como ajudante de advogados é surpreendente, mas o que aconteceria se os clientes não soubessem que estão lidando com uma máquina?

Jill é responsável pela moderação do fórum de perguntas e respostas de 300 estudantes de um curso de ciências da computação na Universidade Georgia Tech. Fórums desse tipo recebem cerca de 10.000 mensagens por semestre e a falta de respostas apropriadas é uma das principais razões para que estudantes abandonem a participação no curso. Depois de três meses trabalhando sob constante monitoramento de professores, Jill passou a responder sozinha muitas das questões colocadas além de postar lembretes e propor temas para discussões no fórum. O que os alunos não sabiam é que Jill é prima de Ross, ambos foram criados sobre a mesma plataforma de inteligência artificial da IBM, o Watson.

Jill tirou uma carga de trabalho importante dos moderadores humanos permitindo que eles pudessem se dedicar a atividades de maior impacto acadêmico e assim melhorar a qualidade do curso, a satisfação dos alunos e seus resultados.

Não é uma plástica que está acontecendo, é um transplante de cérebro. Nem mesmo profissões com alto índice de intelectualização estão livres da reforma radical que está acontecendo no mercado de trabalho, e nossa educação, que deveria se antecipar ao movimento, se está percebendo isso, finge que não vê.

Nossos políticos, legisladores e executivos não parecem muito preocupados com o que precisa urgentemente ser feito. Iniciativas públicas como a criação da Base Nacional Comum Curricular estão muito longe de propor o que precisa ser feito. Parece mais do mesmo, parece não haver interesse em formular propostas que realmente causem a revolução necessária na educação, pois isso exporia a miopia histórica e uma persistente falta de visão para realmente preparar nossos alunos para o mundo do futuro, qualquer futuro anterior, mas principalmente esse que chega cada vez mais rápido e que agora está apenas a duas eleições de distância.

Habilidades, especialização e carreira em T

Educação e trabalho sempre andaram juntos, mas nos últimos anos o trabalho vem mudando numa velocidade que a educação não tem conseguido acompanhar. Não só a forma de trabalhar mudou, mas também os conhecimentos necessários para atuar em qualquer área. Habilidades que até outro dia eram menos importantes do que conhecimento técnico estão ganhando relevância, enquanto esse mesmo conhecimento técnico, quando desacompanhado de visão holística, se torna quase uma commodity.

Habilidades genéricas associadas ao profundo conhecimento em uma área específica é o que especialistas têm considerado o perfil mais adaptado ao momento atual, e que ganhou o nome de carreira em T. A matéria da Épocaexplica melhor essa evolução da antiga carreira em Y e detalha quais as habilidades genéricas são as mais necessárias para o novo mercado de trabalho.

Na Finlândia, meca do melhor ensino do mundo, a preocupação é cada vez mais que os alunos percebam cada área (que antigamente a gente chamava de matéria) como parte de um todo. Por isso, há algum tempo o país vem abandonando a divisão entre assuntos e educando a partir de projetos e interesses pessoais de cada aluno. Num país onde as crianças entram na escola apenas aos sete anos, não têm provas – são avaliadas apenas pelos professores – e têm mais horas livres do que a média mundial, mudar o que parece está dando certo sempre pode causar conflitos.

matéria no Terra Educação conta mais sobre o processo e o que a Finlândia tem de diferente que ajuda a que seus sistema educacional seja exemplo global.

4x educação e trabalho

Na PanoraMix #16 falei sobre a preparação dos jovens para as novas carreiras que estão surgindo e como nossas escolas ainda não alinharam seus programas para atender a esse futuro próximo. Enquanto isso o jeito é buscar informação e formação longe da escola tradicional. A Udacity  é uma das principais plataformas de educação online conhecidas como MOOCs e oferece vários cursos de introdução a assuntos de futuro. A Exame lista cinco deles: Ciência de dados, machine learning, realidade virtual, desenvolvimento de aplicativos e inteligência artificial.  Todos grátis e em português.

No mesmo caminho de preparar mão de obra para uma área com demanda crescente, a ONG Gerando Falcões com a CA Technologies e a Madcode criaram um curso presencial de programação específico para meninas de 16 a 18 anos da Zona Leste de São Paulo. Mulheres representam apenas 24% dos trabalhadores em tecnologia e esse curso de dois meses pode ajudar a mudar esse cenário.

E como já mostrei num artigo, a tecnologia ajuda, mas não é só a ela que vai mudar nossa educação. Nem só dinheiro. O exemplo de Sobral, cidade no interior do Ceará mostra isso.

Tido como destaque no Índice de Educação Básica do ano passado, o município mostrou que uma estratégia educacional que valoriza a performance tanto de alunos como de professores pode trazer resultados que nenhuma tecnologia seria capaz. Ainda que o modelo de Sobral não seja perfeito e receba várias críticas, acredito que vale a pena conhecê-lo clicando aqui.

Assunto recorrente por aqui é a diminuição da oferta de trabalho em atividades que não exigem especialização ou que são repetitivas. Algumas dessas posições serão substituídas por robôs enquanto outras simplesmente desaparecerão. O incentivo à qualificação de mão de obra para esse futuro deveria ser prioridade de governos preocupados com a empregabilidade e renda de seus cidadãos, mas o que temos visto é que alguns legisladores, que ainda não entendem as mudanças pelas quais estamos passando, preferem uma via mais fácil, mas que tem efeito contrário: aumentar o salário mínimo, como têm feito algumas cidades americanas, acaba gerando redução de renda.

Em 2015 já tratei do assunto em um artigo, e um estudo recente comprovou que quando Seattle aumentou o salário mínimo por hora para US$15, o trabalhador nessa faixa de remuneração ficou US$ 125 mais pobre no final do mês. O Washington Post tem uma matéria interessante sobre esse assunto que é detalhado mais profundamente em artigo da Vox.


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