PanoraMix Especial | Trabalho na nova economia

Nunca mais iremos trabalhar como antes. Salários, jornadas, habilidades e profissões estão mudando diante dos nossos olhos.

Na PanoraMix Especial de hoje tento resumir o que já publiquei sobre esse assunto que impacta passadas e futuras gerações.

Sem falsa modéstia, acho uma leitura importante para estudantes e seus pais começarem a perceber por onde estamos indo nesse assunto que nos preocupa cada vez mais.
Abs,
Paco Torras


Querem matar a automação com impostos

Você já sabe que se um robô puder fazer o seu trabalho, ele fará, certo? Robôs não têm horário, férias, sindicatos e não pagam contribuições sociais como INSS ou FGTS, além de serem muito mais eficientes. Isso pode acabar tendo um impacto relevante não só na criação e manutenção de empregos, mas também, e mais importante, na arrecadação de impostos e consequente financiamento do estado.

Por isso Bill Gates está propondo que parte do aumento da eficiência e da redução de custos seja convertida num novo imposto com um destino tão bem definido como o nosso futuro. Sério. A Exame explica a ideia do futuro primeiro trilionário do mundo.

Quem diria que robôs podem gerar empregos?

O trabalho no futuro é um assunto recorrente no Panora, e a substituição de mão de obra humana por robôs ou sistemas automatizados é uma realidade agora. Enquanto esses sistemas eram caros e inacessíveis e a mão de obra barata, essa substituição foi lenta e restrita a ambientes industriais, longe do público em geral. Mas com o aumento real de salários, redução dos custos tecnológicos e a evolução desses sistemas, muitas iniciativas desse tipo estão se tornando viáveis, acontecendo agora e cada vez mais perto do consumidor.

A Wendy’s, uma das maiores cadeias de fast-food dos EUA, pretende instalar esse ano mais de 1.000 quiosques self-service automatizados dos seus restaurantes. Numa indústria onde 73% das tarefas pode ser automatizada, qualquer aumento de custos trabalhistas pode ser revertido com automação.
Mas, ao contrário do que se possa pensar, num primeiro momento essa automação pode até gerar um crescimento do número de empregados no back office devido ao aumento da quantidade de pedidos gerados pelos sistemas autônomos mais eficientes. Pelo menos por enquanto robôs podem vir a gerar empregos, por mais paradoxal que isso pareça. Fico pensando que com os altíssimos custos trabalhistas no nosso país, mesmo com baixos salários, quanto tempo falta para nos tornarmos o paraíso da automação. Ou não.

Mas como não sou funcionário de fast food, tenho medo mesmo é dos robôs da Boston Dynamics, empresa do Google. Assista ao vídeo até o fim.


PanoraMix é minha curadoria semanal com artigos e análises sobre como  a transformação digital está impactando negócios e sociedade.

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A automação dos jornalistas, mas não do jornalismo

Que a mídia em geral, e a impressa em particular, até hoje tem muitas dificuldades em entender o digital é um fato inconteste e outro assunto largamente discutido no Panora. Obviamente isso tem um enorme impacto nos profissionais de jornalismo que estão tendo que se reinventar para continuar exercendo sua atividade. A pulverização da produção e distribuição de conteúdo tornam tudo mais complicado. Mas, como diz Murphy, se algo pode piorar, irá piorar.

Durante as Olimpíadas do Rio, o Washington Post testou uma versão atualizada do Heliograf, um sistema de inteligência artificial que produz – escreve – artigos e reportagens utilizando templates criadas por editores humanos e enormes bases de dados com informações estruturadas. O objetivo comercial do projeto do Post é que o Heliograf trabalhe para ampliar sua base de leitores produzindo e publicando conteúdos específicos para muitas pequenas audiências locais e de nicho, inviáveis de serem cobertas por jornalistas, complementando assim o conteúdo genérico para a massa produzido normalmente.

Claro que o Post diz que não há a intenção de substituir os jornalistas, mas sim tirá-los de atividades repetitivas e de busca intensa de dados e deixá-los livres para produzir matérias e análises com mais profundidade. Pode ser. A Wired conta essa história e mostra outros sistemas além do Heliograf.
Se você acha que não é possível um robô jornalista te enganar, o New York Times tem um teste para você. Faça aqui e me conte seu resultado. Acertei metade.

Reengenharia para engenheiros

A experiência de um jovem estudante de engenharia que trocou o ITA pela Polytechnique de Paris descrita pela Época, é um espelho do ensino superior brasileiro que forma mal, pouco e nas áreas erradas, apesar do enorme investimento estatal e privado.

Esse é um dos motivos pelo qual o déficit estimado de 150.000 engenheiros – profissão fundamental num país em crescimento – tende a não diminuir, pois apesar do aumento na quantidade de matriculas em cursos de engenharia, somente 30% delas são em instituições de melhor padrão (notas 4 e 5 no enade). Escolas como o ITA, que forma anualmente 120 bons engenheiros e mesmo assim perde 13 estudantes para o exterior todos os anos. Por isso também é que apesar da alta demanda, os salários da categoria não subiram muito além das demais. Nossos engenheiros são poucos e em geral mal formados.

O Nobel de física Richard Feynman avisou isso na década de 50.

A reportagem da Época conta outras histórias de ótimos alunos de engenharia deixando o país, porque nossas instituições de ensino técnico são tão jurássicas e o que está sendo feito para tentar melhorar o panorama. Adianto logo que a paisagem não é bonita.

Trabalho e poder 

Um dos assuntos mais comentados recentemente foi a aprovação pela câmara dos deputados de uma lei que ao mesmo tempo que permite o funcionamento, praticamente transforma serviços como o Uber e Cabify em táxis comuns.

O gráfico abaixo mostra a quantidade de dinheiro novo que entrou na economia de São Francisco através do Uber, Lyft e similares sem praticamente nenhum prejuízo aos taxistas. Foram US$ 150 milhões em 2013.

Segundo estimativas, aplicativos de transporte movimentam no Rio e em São Paulo cerca de R$ 3 milhões por dia.

Essa decisão do nosso congresso mostra quanto os deputados estão descolados da atualização necessária das relações de trabalho que irão acontecer à revelia deles.  Já a reação pública contrária à decisão através das redes sociais, mostra também o desalinhamento com as demandas e necessidades dos cidadãos e como nosso congresso tampouco percebe a mudança no eixo do poder que a tecnologia tem viabilizado.

Leia meus artigos sobre como o trabalho mudou, e como nossos governantes e alguns empresários ainda não perceberam isso para você entender o tamanho do buraco onde nossos deputados estão nos enterrando.

Sol gera trabalho e energia 

Já que o assunto é trabalho, um relatório do departamento de energia dos EUA aponta que ano passado a indústria da energia solar empregou mais gente do que as indústrias de óleo, carvão e gás somadas.

O enorme aumento no rendimento das placas solares e a diminuição dos seus custos tornaram a energia fotovoltaica a mais barata forma de geração de eletricidade disponível no mercado americano. Mais barata até do que vento.

Além de mais limpas e mais baratas, energias renováveis geram mais empregos do que as fósseis. Por essa o Trump não esperava.

Seu trabalho está a salvo dos robôs?

A gente sabe que está fazendo um bom trabalho quando questões que temos levantado e analisado nos últimos anos começam a chegar ao mainstream da mída. Por isso é ótimo ver um veículo como o Estadão discutindo o futuro do trabalho frente às transformações que nossa sociedade está passando. Na seção de Opinião do jornal, o professor Fábio de Biazzi repete e evolui sobre diversas tendências e realidades nessa delicada área que tanto discutimos por aqui. Vale a leitura.

2024
O site Statista, especializado em fornecer estudos e estatísticas sobre os mais diversos assuntos vai além e projeta o declínio de algumas atividades que serão substituídas por máquinas na próxima década. Veja no gráfico abaixo.

Habilidades, especialização e carreira em T

Educação e trabalho sempre andaram juntos, mas nos últimos anos o trabalho vem mudando numa velocidade que a educação não tem conseguido acompanhar. Não só a forma de trabalhar mudou, mas também os conhecimentos necessários para atuar em qualquer área. Habilidades que até outro dia eram menos importantes do que conhecimento técnico estão ganhando relevância, enquanto esse mesmo conhecimento técnico, quando desacompanhado de visão holística, se torna quase uma commodity.

Habilidades genéricas associadas ao profundo conhecimento em uma área específica é o que especialistas têm considerado o perfil mais adaptado ao momento atual, e que ganhou o nome de carreira em T. A matéria da Épocaexplica melhor essa evolução da antiga carreira em Y e detalha quais as habilidades genéricas são as mais necessárias para o novo mercado de trabalho.

Na Finlândia, meca do melhor ensino do mundo, a preocupação é cada vez mais que os alunos percebam cada área (que antigamente a gente chamava de matéria) como parte de um todo. Por isso, há algum tempo o país vem abandonando a divisão entre assuntos e educando a partir de projetos e interesses pessoais de cada aluno. Num país onde as crianças entram na escola apenas aos sete anos, não têm provas – são avaliadas apenas pelos professores – e têm mais horas livres do que a média mundial, mudar o que parece está dando certo sempre pode causar conflitos.

matéria no Terra Educação conta mais sobre o processo e o que a Finlândia tem de diferente que ajuda a que seus sistema educacional seja exemplo global.

Salário mínimo “alto” gera desemprego

Os recentes aumentos reais no salário mínimo em alguns estados americanos está acelerando a adoção se sistemas automatizados e robóticos em atividades nas quais esse podem ser mais eficientes, baratos e rentáveis.

Os primeiros a serem substituídos serão aqueles que trabalham em funções repetitivas e sem necessidade de especialização e nas cozinhas de fast-foods como o McDonald’s onde a mão de obra corresponde a 30% dos custos operacionais dos restaurantes.

Na verdade esse movimento já acontece há algum tempo, só tende a ser mais acelerado agora.  Nos anos 60-70, uma loja do McDonald’s tinha entre 70 e 80 funcionários contra os 30 ou 40 de hoje pois ao invés de serem preparados na loja, ingredientes e molhos já chegam prontos para uso. Os próximos a serem substituídos por máquinas serão os chapeiros, aqueles que preparam os hambúrgueres. A produtividade dessa atividade subiu apenas 0.3% ao ano, muito baixo se comparada a outras indústrias. Quem ainda vai ficar serão os atendentes, a frente da loja que lida diretamente com os clientes. O contato humano ainda não pode ser substituído por robôs. Pelo menos não nos EUA.

No Brasil, onde os salário mínimo ainda é baixo mas a eficiência da indústria é ainda menor, esse movimento vai ser inevitável e acelerado pela baixa qualificação da mão de obra existente e pela queda nos custos da automação de atividades mais simples.

Como nos diferenciarmos das máquinas

Falo bastante aqui sobre a imparável substituição de mão de obra humana por robôs, automação e inteligência artificial. Sobre como atividades e tarefas repetitivas e que não exijam criatividade estão sendo assumidas por máquinas, interfaces e sistemas que são mais eficientes, baratos e rápidos do que nós humanos.

Também temos visto que esses empregos perdidos para as máquinas estão sendo substituídos por outras atividades que elas ainda não fazem ou que, como mostra essa matéria da The Economist, são atividades necessárias para que essas máquinas, sistemas e interfaces existam e sejam cada vez melhores.

Na verdade, o tipo de tecnologia inteligente que vêm assumindo essas atividades não só não existiria sem o suporte humano como não conseguirá evoluir, melhorar, ser mais abrangente e eficiente sem nossa ajuda em tarefas bem básicas.

Resumindo: a tecnologia precisa cada vez mais de humanos pavimentando o caminho para ela evoluir exatamente porque os humanos iremos demandar cada vez mais dela. É um loop que só vai se quebrar em um futuro ainda distante, quando máquinas aprenderem sozinhas e nosso nível de exigência com elas atenda todas as nossas necessidades.

Alguns exemplos dessas novas atividades humanas que existem em simbiose cada vez maior com máquinas e sistemas estão na imagem abaixo e possuem prazo indeterminado, mas definitivamente limitado de validade.

O que não tem prazo de validade e capacita o ser humano a ser diferente das máquinas são conhecimentos e habilidades genéricas. O World Economic Forum listou quais serão essas habilidades em 2020:

  1. Solução de problemas complexos
  2. Pensamento crítico
  3. Criatividade
  4. Gerenciamento de pessoas
  5. Coordenação multidisciplinar
  6. Inteligência emocional
  7. Análise e tomada de decisões
  8. Orientação a serviços
  9. Negociação
  10. Flexibilidade cognitiva

Nenhuma dessas habilidades pode ser ensinada isoladamente e exigem prática. Por isso algumas universidades já estão oferecendo a possibilidade de seus alunos se exercitarem nesses temas aplicando-os de forma combinada e vertical aos seus estudos regulares.

Já foi o tempo em que habilidades como as citadas acima eram oferecidas e exigidas apenas dos líderes, hoje são necessárias independentemente de posição hierárquica ou área de trabalho.

Mas na minha opinião essas universidades consideradas mais atualizadas com as necessidades do novo mercado de trabalho estão apenas tapando um buraco que é do ensino médio. Habilidades como essas deveriam fazer parte do currículo das escolas desde o primário, pois além de fundamentais para a vida e cada vez mais necessárias no trabalho, podem ser diariamente aprimoradas no uso cotidiano.

Exatamente como as máquinas dotadas de inteligência artificial estão aprendendo a fazer.

Um comentário sobre “PanoraMix Especial | Trabalho na nova economia

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