PanoraMix Especial Educação

Tratamos tanto sobre o assunto, que a PanoraMix Especial sobre Educação vai ser dividida em duas edições. Veja só o que selecionei para essa primeira parte entre tudo o que já publiquei sobre a nova educação no Panora:

  • Política e educação para uma nova era
  • Reengenharia para engenheiros
  • 14 anos para virar uma página
  • Tecnologia não resolve tudo
  • Programação sem computadores
  • Educação como investimento
  • Quem quer ser um professor?

Em uma próxima edição vou recuperar mais artigos e análises sobre esse tema fundamental.

Abs,
Paco Torras


Política e educação para uma nova era

Paco Torras

Considero um privilégio viver nessa virada de século e poder presenciar, participar, colaborar e usufruir da revolução na sociedade que está sendo viabilizada pela tecnologia, mesmo com todos os percalços inerentes a um processo veloz e intenso como esse.

Nunca achei que essa fosse uma sensação unânime pois vejo que há quem não se impressione, quem não perceba ou quem ainda não tenha efetivamente sentido o impacto real dessas mudanças no seu dia a dia. Há também aqueles que percebem, sentem o impacto, mas, mais do que negar, mais do que tentar tirar proveito das enormes oportunidades que estão surgindo, trabalham contra essa jornada inexorável. O pior é que são essas as pessoas que tentam mandar no nosso futuro.

Acompanhando as campanhas dos candidatos a vereador e prefeito para as próximas eleições, vejo que, com raríssimas exceções, seus programas e propostas não tiram proveito efetivo para políticas públicas desse momento único que estamos passando. As intenções parecem ser continuar fazendo tudo da mesma maneira, com os mesmos objetivos do século passado. Não vejo na maioria dos candidatos o olho num futuro que será muito diferente do que eles gostariam que fosse. E são nas propostas para a educação que isso se torna muito evidente, pois trata-se de um processo a médio-longo prazo que não interessa para quem só pensa nos próximos quatro anos. Empurrar com a barriga as mudanças necessárias nessa área só vai nos levar para trás.

Não vi nenhum candidato dizendo claramente que temos que mudar tudo na educação. Não vi nenhuma proposta que vise preparar minimamente o aluno para o mercado quando ele completar sua graduação. Continuam a prepará-lo com práticas e conteúdos que faziam sentido na sociedade pré-digital.

Urge darmos um salto para tentar alcançar índices que permitam que nossos futuros profissionais possam colaborar nas revoluções que irão se tornar mais globais, transformadoras e frequentes. Mas do jeito que vamos a distância desse objetivo só aumenta.
Um exemplo

Nos EUA o governo federal lançou em janeiro de 2016 a “Computer Science for All Initiative”, iniciativa que pretende oferecer conhecimentos de matemática e computação a todos os alunos do jardim de infância aos doze anos num investimento de mais de US$ 4 bilhões que responde ao seguinte questionamento colocado pelo presidente Barack Obama:


“Vivemos em uma época de mudanças extraordinárias que afetam a maneira como vivemos e o modo como trabalhamos. Novas tecnologias estão substituindo qualquer emprego onde o trabalho pode ser automatizado.  Trabalhadores precisam renovar suas habilidades para evoluir.  Estas mudanças não são novas e só vão acelerar.  Então a pergunta que temos que fazer é: ‘Como podemos ter certeza que todo mundo tem uma chance de sucesso nesta nova economia?‘ “


É disso que estou falando. Não vejo nas propostas de governo uma real preocupação de dar o salto necessário, de parar de olhar para trás e resolver os problemas do passado olhando para o futuro.
Formação e trabalho

Se os benefícios diretos e indiretos do ensino de ciências da computação não bastassem para entendermos sua enorme relevância – já tratamos disso aqui aqui – talvez um estudo da Forrester mostre isso mais claramente. A consultoria prevê que até 2025, menos de uma década, tecnologias como inteligência artificial, robôs, bots e automações em geral irão substituir 16% da força de trabalho americana enquanto irão criar apenas 9% de novos empregos. Vão desaparecer 7% dos empregos nos EUA somente por conta dessa tendência.

Enquanto funções administrativas, de logística, transportes e call-center, todas com baixos níveis de salário e especialização, serão as primeiras a desaparecer, o aumento de oportunidades se dará em áreas como monitoramento de robôs, análise de dados, especialistas em automação e curadoria de conteúdo. Você vê algum de nossos formuladores de políticas educacionais apontando que a formação dos estudantes brasileiros deva ir nessa direção?

Se olharmos com mais detalhe e esticarmos um pouco o prazo das projeções veremos que não são só atividades repetitivas ou de baixa especialização que irão ter menos relevância no futuro. Profissionais com alto grau de especialização estão começando a ser substituídos por máquinas e seus clientes nem percebem a diferença.

A família Watson

Recentemente o escritório americano Baker & Hostetler anunciou que contratou a plataforma de inteligência artificial da IBM Ross para atuar na sua área de falências onde trabalham cerca de cinquenta advogados. Ross, “o primeiro advogado com inteligência artificial do mundo” foi criado em cima do computador cognitivo Watson da IBM que é capaz de ler, entender, pesquisar e postular hipóteses antes de tirar suas conclusões, ao mesmo tempo que monitora os bancos de dados atrás de decisões que possam afetar algum caso conhecido por ele. Isso tudo em alta velocidade.

Será que a OAB e nossas universidades que despejam 90.000 bacharéis em direito todo ano no mercado (são dez bacharéis por hora) sabem disso? E se souberem, como irão (re)agir?

Escolher usar um computador como ajudante de advogados é surpreendente, mas o que aconteceria se os clientes não soubessem que estão lidando com uma máquina?

Jill é responsável pela moderação do fórum de perguntas e respostas de 300 estudantes de um curso de ciências da computação na Universidade Georgia Tech. Fórums desse tipo recebem cerca de 10.000 mensagens por semestre e a falta de respostas apropriadas é uma das principais razões para que estudantes abandonem a participação no curso. Depois de três meses trabalhando sob constante monitoramento de professores, Jill passou a responder sozinha muitas das questões colocadas além de postar lembretes e propor temas para discussões no fórum. O que os alunos não sabiam é que Jill é prima de Ross, ambos foram criados sobre a mesma plataforma de inteligência artificial da IBM, o Watson.

Jill tirou uma carga de trabalho importante dos moderadores humanos permitindo que eles pudessem se dedicar a atividades de maior impacto acadêmico e assim melhorar a qualidade do curso, a satisfação dos alunos e seus resultados.

Não é uma plástica que está acontecendo, é um transplante de cérebro. Nem mesmo profissões com alto índice de intelectualização estão livres da reforma radical que está acontecendo no mercado de trabalho, e nossa educação, que deveria se antecipar ao movimento, se está percebendo isso, finge que não vê.

Nossos políticos, legisladores e executivos não parecem muito preocupados com o que precisa urgentemente ser feito. Iniciativas públicas como a criação da Base Nacional Comum Curricular estão muito longe de propor o que precisa ser feito. Parece mais do mesmo, parece não haver interesse em formular propostas que realmente causem a revolução necessária na educação, pois isso exporia a miopia histórica e uma persistente falta de visão para realmente preparar nossos alunos para o mundo do futuro, qualquer futuro que já tenha acontecido, mas principalmente esse que chega cada vez mais rápido, e que agora está apenas a duas eleições de distância.


Reengenharia para engenheiros

A experiência de um jovem estudante de engenharia que trocou o ITA pela Polytechnique de Paris descrita pela Época, é um espelho do ensino superior brasileiro que forma mal, pouco e nas áreas erradas, apesar do enorme investimento estatal e privado.

Esse é um dos motivos pelo qual o déficit estimado de 150.000 engenheiros – profissão fundamental num país em crescimento – tende a não diminuir, pois apesar do aumento na quantidade de matriculas em cursos de engenharia, somente 30% delas são em instituições de melhor padrão (notas 4 e 5 no enade). Escolas como o ITA, que forma anualmente 120 bons engenheiros e mesmo assim perde 13 estudantes para o exterior todos os anos. Por isso também é que apesar da alta demanda, os salários da categoria não subiram muito além das demais. Nossos engenheiros são poucos e em geral mal formados.

O Nobel de física Richard Feynman avisou isso na década de 50.

A reportagem da Época conta outras histórias de ótimos alunos de engenharia deixando o país, porque nossas instituições de ensino técnico são tão jurássicas e o que está sendo feito para tentar melhorar o panorama. Adianto logo que a paisagem não é bonita.


14 anos para virar uma página

Lembram que na recentemente falamos sobre nosso governo querendo tributar uma TV que nem existe ainda? Ao contrário da ANCINE, nosso STF parece ser um pouco mais lúcido, mas nem sempre, e deu uma demonstração de que entende que a tecnologia é aliada do crescimento, inclusive da arrecadação, e da difusão do conhecimento.

Num processo que começou QUATORZE anos atrás (o Kindle foi lançado há nove), o tribunal decidiu que o suporte não importa então e-books e e-readers têm a mesma imunidade tributária dos livros de papel.

Mesmo com justificativas que me parecem infantis como a do ministro Fux dizendo que “não é preciso matar árvores para garantir a liberdade de informação por meio da mídia”, é uma decisão que dá alguma segurança tributária para quem investe na área. Inúmeras pequenas editoras que publicam exclusivamente no formato digital estão celebrando.

A ministra Cármen Lúcia colocou bem no seu voto: “criar dificuldade financeira para as pessoas acessarem os livros eletrônicos e outras fontes de conhecimento é uma forma de censura”. Esperemos que esse ponto de vista se estenda às muitas outras áreas nas quais o excesso de impostos inviabiliza o acesso a informação e cultura. E que não demore mais quatorze anos.


Não é só a tecnologia que vai resolver os problemas da educação

Paco Torras

Definitivamente precisamos de um reboot na forma e no conteúdo usado para educar nossos jovens. Como os resultados dos exames e testes internacionais como o PISA indicam, somos dos últimos colocados na preparação dos estudantes do nível médio, mesmo tendo um sistema educacional público e privado com foco exatamente em que o aluno passe em testes, como o ENEM, e não com foco em uma educação agnóstica e holística como pede a nova sociedade. Preparar para o mercado é quase uma heresia em termos educacionais no Brasil.

Acesso em massa a conteúdo e informação é um dos benefícios que a tecnologia pode trazer para esse reboot, mas isso está longe de resolver os problemas do nosso ensino, principalmente o médio. Não é dando um tablet para cada aluno nem replicando em vídeos na internet as aulas dadas em sala, que iremos dar o salto necessário e atingir o patamar de qualidade que os exames internacionais pedem, nem disseminar o tipo de conhecimento, pensamento e cultura que os profissionais do século XXI precisam.

O sistema de ensino praticado hoje na maioria das nossas escolas vem das linhas de produção desenvolvidas após a revolução industrial. A estrutura hierárquica, o fluxo unidirecional de conteúdo do professor para o aluno e a necessidade de memorização que ainda dominam os estudos, não servem mais para a nova indústria altamente robotizada que está surgindo. E a mesma tecnologia que está criando essa nova indústria pode ajudar muito a mudar esse cenário, mas sem o rompimento completo com esse sistema educacional arcaico não há tablet ou internet que resolva.

Como a gente já viu aqui e aqui, a formação desse aluno, que será o profissional de um futuro que não está mais batendo mas já está abrindo a porta, não passa mais por disciplinas estanques mas sim por atividades interdisciplinares como resolução de problemas, pensamento crítico, processos decisórios, trabalho em equipe e perseverança que utilizam de maneira prática e objetiva a matemática, biologia, geografia, etc. em projetos com um fim. O aluno tem que ir para a escola para realizar e não apenas para escutar, memorizar, repetir e ser testado nisso. Há diversas iniciativas que juntam tecnologia com esse conceito de projeto, de objetivo real para além do aprendizado formal.

O Brasil é o mais novo país a se juntar ao GLOBE, projeto que conecta mais de 4 mil escolas do mundo com cientistas. Os alunos coletam dados ambientais de suas regiões e os enviam aos especialistas, que ajudam a analisá-los e a sugerir soluções para problemas do meio ambiente local. Segundo a Unesco, iniciativas como essa oferecem oportunidades práticas para exercitar e aplicar conhecimento e competências além de motivar os estudantes que se envolvem muito mais no processo de aprendizado.

Envolver o estudante é outro enorme desafio e fundamental para manter o aluno na escola, e isso é potencializado quando o conteúdo é personalizado de acordo com seus pontos fortes e fracos. A Geekie, startup brasileira de tecnolgia educacional, desenvolveu um software que ao interagir com o estudante percebe suas dificuldades e cria um plano de estudos adaptado para ele.

Mas nenhuma dessas iniciativas pode alcançar seu potencial completo sem um professor dedicado.

Falar em mercado quando se fala dos professores também é uma heresia. Professores por aqui são percebidos e tratados quase como voluntários desvalorizados quando na verdade são eles que formam o capital humano do país. Hoje os melhores professores provavelmente estão longe dos alunos, em atividades que pouco colaboram para a geração e transmissão de conhecimento e consequentemente riqueza. A lei do mercado como sempre  é implacável, e pagar melhor aos professores garante encontrarmos dentro da sala de aula alguém motivado e preparado para obter os resultados que lhes são demandados.

Resolução de problemas, curiosidade, pensamento crítico e perseverança não são somente os atributos que precisam ser passados aos jovens de hoje para terem sucesso na vida adulta, são também a base das mudanças que o nosso sistema educacional como um todo tem que absorver para mudar. Absorver e agir numa velocidade que ainda não vimos ser alcançada em outras áreas que tiveram muito mais atenção do que a educação no Brasil. Está na hora de compensar esse atraso.


Ensinando programação sem computadores

Quem acompanha o Panora sabe do meu interesse por educação e de como acredito que é urgente uma remodelação completa na forma e no conteúdo adotados nas escolas privadas e públicas em todos os níveis por aqui.

Leia aqui tudo o que já publiquei sobre educação no Panora. Não é pouca coisa.

Por isso vi como um sopro de otimismo o anúncio do prefeito de São Paulo dizendo que vai oferecer aulas de programação para estudantes do primeiro grau. Essa importante iniciativa não visa somente tentar iniciar as crianças numa área onde a mão de obra é escassa, onde há crescente demanda e é agnóstica quanto à sua localização. Entende-se que aprender a lógica de programação ajuda a pensar de forma mais estruturada e assim a resolver problemas e construir hipóteses mais facilmente em qualquer área. Não só na tecnologia.

Mas meu entusiasmo arrefeceu um pouco quando vi que o projeto começa comprando computadores, tablets e impressoras 3D para 242 escolas, quando os melhores exemplos de iniciativas desse tipo mostram que estudantes da educação básica não precisam de computadores para aprender a lógica e começar a programar. Um dos exemplos, como sempre, vem da Finlândia, onde a apresentação dos conceitos básicos necessários para iniciar as crianças nessa área passa longe de máquinas e estão integrados em atividades do dia a dia delas. A The Atlantic conta essa história. Tomara que o Dória leia.


Educação como investimento

O mercado da educação no Brasil está quente.

  • Um fundo de investimentos brasileiro comprou essa semana fatias de duas importantes escolas de ensino fundamental e médio no Rio, a Escola Parque, e em SP, a Escola da Vila.
  • Ano passado a Kroton e a Estácio se fundiram e criaram o maior grupo educacional do Brasil avaliado em R$ 28 bilhões. A operação ainda precisa do aval do CADE.
  • Em 2015 outro fundo de investimentos assumiu o controle da Abril Educação e criou a Somos, que é a maior empresa de educação básica e pré-universitária do Brasil.

Mas nem sempre foi assim por aqui. O Descomplica, nosso maior site de ensino on-line, incrivelmente não tem nenhum investidor institucional brasileiro.

Aquela educação com escolas e universidades criadas e geridas por gerações de famílias como a Veiga de Almeida, Gama Filho e Candido Mendes, não existe mais. Educação se tornou um alvo de grandes investidores não só porque é um grande negócio, mas pelo enorme papel transformador que esse negócio pode ter. E como não existe grande investidor sem um grande ego, todos querem ter o melhor dos dois mundos: retorno e realização pessoal.

Bill Gates e os fundadores do Google, entre outras figuras do mesmo porte, investiram na Kahn Academy, uma das mais conhecidas startups de ensino on-line. Mark Zuckerberg e Andreessen Horowitz lideraram um aporte de US$ 100 milhões na Alt School, rede de escolas de ensino fundamental. Elon Musk criou a Ad Astra, uma escola para os seus cinco filhos e os filhos de funcionários da Tesla, e o nosso Jorge Paulo Lemann montou o fundo Gera Venture para investir apenas em negócios de educação.

Esperemos que além de ampliar o acesso ao ensino e dar retorno financeiro e de imagem aos investidores, essa onda também crie oportunidades para a adoção de um ensino mais alinhado com as novas necessidades de uma sociedade que muda todo dia


Quem quer ser um professor?

Um desdobramento óbvio do fato de que hoje qualquer um pode produzir e vender conteúdo acaba de ganhar escala com a liberação para o público em geral do Google Classroom.

A plataforma, que antes só estava disponível para escolas, universidades e seus estudantes, agora foi aberta para que qualquer um possa montar cursos online com vídeo, provas, tarefas, trabalhos e acompanhamento interativo dos alunos. Não achei nela uma forma para cobrança pelas aulas, mas tenho certeza que em breve essa funcionalidade será integrada à plataforma.

Plataformas de vídeo foram o trampolim para a criação de diversos negócios em entretenimento e educação, e MOOCs são o modelo para ampliar o acesso a conteúdo e conhecimento. Leia aqui tudo o que já publiquei sobre como a tecnologia está mudando a educação.

Esse é mais um passo para disseminar conhecimento, mas também para democratizar seu acesso. Etapa fundamental para qualquer proposta de redução de desigualdades sociais e econômicas.

Se você quer oferecer algum curso online, pode começar por aqui.


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