PanoraMix Especial | Moda e Comida

Essa é a primeira edição da PanoraMix Especial que semanalmente irá recuperar notas e análises já publicadas sobre assuntos específicos.

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Smart Jeans

Wearables, ou dispositivos vestíveis, é aquele produto onde só algumas vezes on e off line se encontram e produzem algo que é mais do que a soma das partes. É também a área onde empresas centenárias como Levi’s, Montblanc e TAG Heuer se sentem compelidas a investir para estarem atualizadas, menos com seus públicos, que na minha opinião não demandam tanto isso delas, mais como posicionamento de marca. É também onde essas empresas se encontram com gigantes da tecnologia que não têm nem dez anos no mercado.

Já faz algum tempo que o Google criou o Projeto Jacquard, uma plataforma de tecidos inteligentes que recentemente foi usada pela Levi’s para criar uma jaqueta jeans com funcionalidades de toque nas mangas, seria uma smart jacket, e virtualmente impossível de ser diferenciada de qualquer outra dumb jacket que a empresa vem produzindo há décadas. Ela foi apresentada pelas empresas semana passada no SXSW e dois vídeos aqui e aqui mostram como ela é fabricada e usada.

Mas legal mesmo vai ser quando essa tecnologia puder ser integrada num tecido que está sendo considerado como o algodão do futuro, uma seda feita de teia de aranha.

Personalização is the new black

O sucesso das recomendações “individualizadas” da Netflix confirmou que personalização é a nova fronteira no relacionamento com consumidores on-line. Tratar seu cliente como único e oferecer produtos que tenham de verdade a ver com seu perfil é dos maiores desafios tanto de distribuidores de produtos digitais quanto de quem vende produtos físicos on-line, como a Adidas, de quem falamos semana passada.

Mas nem sempre ser único é melhor, a Netflix escolheu um caminho mais simples e direto. A empresa dividiu seus 93 milhões de usuários de 190 países em apenas 1.300 grupos com padrões de consumo similares – ou personas como gostam os neo-marqueteiros – independente de país ou idioma. Com isso um cliente na Polônia pode ter recomendações iguais a outro no Brasil porque consomem a mesma coisa. Faz sentido. O USA Today explica melhor essa estratégia.

Construir perfis ou personas que identifiquem pessoas ou grupos exige colher e cruzar enormes quantidade de dados e processá-los em tempo real para encantar seu cliente na hora em que ele visita seu site. Fazer o mesmo em uma loja física é bem mais complexo, mas, como o hamburguer, não é impossível.

Talvez tenha sido a Nike a primeira grande empresa a permitir que seus clientes criassem tênis únicos com cores, detalhes e personalização individuais de um modelo que ela já fabrica. O serviço Nike iD produz um tênis exclusivo com a mesma qualidade dos produzidos em série e o entrega na sua casa por um preço premium. Sua arquirrival Adidas está dando um passo além e passou a oferecer em caráter experimental numa loja em Berlim um serviço que escaneia o corpo do cliente e produz na hora, do zero, o tecido e o agasalho na estampa escolhida pelo cliente. Não é só um produto com o visual que o cliente escolheu, é um produto produzido exclusivamente para o cliente. Alfaiataria.

Assista o vídeo promocional aqui. O suéter custa US$ 215.

Quando lançou seu Model T em 1908, Henry Ford disse que o comprador poderia escolher qualquer cor para o carro, desde que fosse preta.  Pois é, nem ele nem os filmes de ficção científica imaginaram que a revolução das máquinas nos levaria para longe da massificação, pelo menos do vestuário, como parece estar acontecendo agora.

Fast-fashion, tecnologia e o fim das liquidações

Em muitos países a tradição das liquidações sazonais movem o comércio, especialmente o de vestuário. Liquidar estoques de peças fora de moda sempre gerou bons negócios para compradores e vendedores. Mas isso, como muito do varejo como conhecemos, está se tornando passado.

Se os consumidores já não se sentem mais tão atraídos pelos descontos oferecidos (entre 40% e 50% menores do que no passado), a indústria também alterou profundamente seus processos de manufatura e hoje produz on-demand em grande escala. Quase não há mais estoques e esse custo, que onerava os preços finais, praticamente desapareceu, tornando similares os preços de produtos da estação ou fora delas.
O consumidor não precisa mais esperar as liquidações para comprar barato.

Zara, H&M, Primark e Uniqlo são as líderes nesse novo mercado de moda barata e atual que ganhou o nome de fast-fashion. O El Pais explica o que está acontecendo na Espanha com o fim das famosas rebajas.

A tecnologia tem um enorme papel na viabilização desse fenômeno, permitindo análises e projeções de demandas e ordens de compra em tempo real, sem intervenção humana e assim garantindo que quase tudo que é fabricado, será vendido.

A Amazon já deu um pulo na frente e patenteou um processo de fabricação de roupas sob demanda que corta e costura cada peça de acordo com as medidas do comprador depois que ele faz o pedido. Já há aplicativos que usando a câmera do celular tiram as medidas do corpo do cliente com alguma precisão.

Peças únicas em escala industrial, pedidas com um clique e entregues grátis na sua casa em poucos dias. Pra quê liquidação?

Seu vizinho vai produzir o que você come

Embora muita gente acredite que quem vai alimentar o mundo é o campo, a verdade não é exatamente essa. Claro que o campo, com os enormes investimentos em tecnologia – de GPS a genética – vai ter um papel preponderante nas culturas extensivas como soja, trigo e milho, mas a nossa verdura, o nosso tempero do dia a dia, virá da cobertura de um prédio vizinho, virá de um galpão abandonado, virá no máximo de um subúrbio. Alguns peixes e frutas também. Claro, também, com uso intenso de diversas tecnologias.

Um dos maiores custos dos alimentos, naturais ou processados é o transporte até onde estão os consumidores. Então, produzir esses alimentos mais perto do cliente, mesmo tendo que investir em tecnologia, faz algum sentido. É isso que empresas como a suíça Urban Farmers e a americana Vertical Harvest se propõem a fazer.

A primeira tem uma iniciativa em SP e produz 5 toneladas de vegetais e 850 kg de peixes em uma fazenda de 250 m2 na Basiléia. A segunda vai produzir em 1.200m2 com a técnica hidropônica a mesma quantidade de vegetais que precisariam de 20.000m2 para serem produzidos com a técnica tradicional.

O Guardian fez uma lista de projetos de fazendas urbanas pelo mundo, um outro também em São Paulo.

Operação carne fake

Como já falamos antes, não vai ser a agricultura tradicional que vai resolver a questão de alimentar os bilhões de habitantes da Terra, vai ser a tecnologia. E a tecnologia também está dando os primeiros largos passos no sentido de criar carne sem a necessidade de animais.

O que parecia impossível é o que a Impossible Foods já está produzindo hoje na Califórnia, meia tonelada hambúrgueres sem carne por mês que ela promete tem o visual, cheiro, sabor e até o sangue que estamos acostumados a ver na carne natural.

Longe de ser comparada a um hambúrguer vegetariano, o produto da usou disciplinas como neurociência e química para identificar na carne natural cada componente que faz ela ser percebida como carne e buscou na natureza elementos que pudessem replicar sensações gustativas, visuais, olfativas e sonoras inerentes a um belo bife de hambúrguer.

Assista aqui um vídeo explicando como é feito esse hambúrguer que era impossível e agora parece ser indistinguível do original.

Utilizando um método diferente, a Memphis Meat está produzindo filés de frango e pato em laboratório a partir de células dos próprios animais colocadas para se reproduzirem em uma solução química nutritiva.

Ambas empresas usam o respeito ao meio ambiente e aos animais como importantes justificativas para investirem nessa área tão desafiadora. Mas de forma similar ao que vemos acontecer com serviços disruptivos como o Uber, que não encontram previsão na nossa legislação, também teremos que encontrar uma forma de lidar com essa nova alimentação que está surgindo longe de fazendas e açougues e que pode ser uma das soluções para um dos maiores problemas da humanidade..

Nas nossas mesas em 2030

Recentemente falamos sobre duas empresas que estão desenvolvendo carne em laboratórios, mas há algumas outras inciativas que irão mudar completamente não só o que comemos, mas também o acesso à comida.

Além da carne de laboratório que é indistinguível da natural, a impressão 3D de pastas de alimentos, algas, que possuem alto teor de carboidratos e proteínas e insetos, que já fazem parte da dieta de mais de 2 bilhões de pessoas serão de fácil acesso nos próximos quinze anos. Todos esses alimentos têm em comum o baixo uso de espaço e água na sua produção, baixo custo quando produzidos em escala além de menor impacto no efeito estufa.

Veja um vídeo falando sobre essas quatro comidas que podem estar nas nossas mesas daqui a pouco.

Laranja Mecânica? Pfffffff. Limonada Eletrônica

Mas se você está somente atrás de sabor, sem preocupações com sustentabilidade e alimentação balanceada, não se preocupe. Também tem alguém pensando em você. Em enganar você.

Pesquisadores de Cingapura inventaram um copo que usando eletrodos na borda informa sua língua o sabor que ela deve sentir mesmo quando dentro do copo só tem água. A tecnologia consegue simular sabores salgados e doces e permite que qualquer um possa ter o prazer do sabor sem a culpa de estar saindo da dieta, por exemplo. Sabendo que se bebe também com os olhos, o copo ilumina a água no seu interior para reproduzir a cor da bebida.

Por enquanto só conseguiram reproduzir uma limonada, mas criar e enviar sabores pela internet é o próximo passo. O Daily Mail tem mais detalhes.

Irmão de peixe plantando vegetais

Quando alguém com o sobrenome é Musk inicia um negócio, espera-se sempre algo no mínimo inovador.

Kimbal é irmão do Elon e tem uma cadeia de restaurantes, The Kitchen, onde promove uma alimentação natural longe do sistema industrializado, servindo “comida de verdade” produzida por fazendas americanas. Mas como os Musks não se contentam em ter só um negócio e nunca muito comuns, Kimbal tem outra iniciativa também na área de comida natural, mas longe das fazendas.

Square Roots é uma aceleradora de fazendas urbanas localizada no Brooklin, em Nova York. Ela possui dez containers estacionados no pátio de uma antiga fábrica de amônia da Pfizer. Aqui vale um parêntese: nesse local há outras quarenta startups na área de alimentação, o que mostra bem a revolução que está acontecendo na produção de alimentos longe do campo.
Cada container da Square Roots tem um empresário responsável, selecionado entre 500 interessados, e está equipado com sensores, iluminação, climatização e sistemas de irrigação para produzir vegetais e temperos que serão consumidos por vizinhos e restaurantes da cidade.
Cada um custa US$ 85.000 e a tecnologia embarcada permite um controle tão fino das condições climáticas no seu interior que é possível reproduzir sabores de produtos de qualquer região e estação do mundo. “Se o melhor manjericão que você comeu foi na Itália no verão de 2006, é possível recriá-lo aqui. ” explica Tobias Peggs, CEO da empresa.

Se você curte o assunto, vale a pena lera a matéria da Backchannel que explica como esse Musk pode vir a nos alimentar enquanto seu irmão nos leva ao espaço.

Pegada de carbono zero em estacionamentos

Mais um exemplo de fazenda urbana. Dessa vez vem da Dinamarca e com apenas 163m² é capaz de produzir até seis toneladas de frutas, ervas, verduras e legumes por ano. O diferencial da Impact Farm é que as “fazendas” vêm em flatpacks, embalagens chatas como as de móveis, para da mesma forma serem montadas no local.

Ocupando uma área equivalente a sete vagas de carros, é impossível não associar essa ideia com os quiosques do Walmart e imaginar que num futuro próximo alimentos frescos possam ser produzidos, colhidos e distribuídos percorrendo apenas alguns metros, dentro de um mesmo estacionamento de uma grande loja ou um edifício garagem. Parece ser perfeitamente possível e economicamente viável. Esperando um grande shopping ou hipermercado brasileiro ver isso também.

Como alimentar o mundo com luz

Já entendemos que esperar pelo governo resolver nossos problemas é sonho e que se ele não atrapalhar já está mais do que bom, certo?

Isso vale para qualquer país e cada vez mais é verdade que são os empresários que estão assumindo as rédeas da inovação – o que um dia foi papel dos governos – resolvendo questões básicas de serviços e efetivamente levando a nossa sociedade em direção ao futuro, pelo menos na maioria dos casos.

Educação, transporte e medicina são algumas das áreas onde há mais exemplos dessa tendência, mas há outra área na qual o problema é tão grande, mas tão grande que qualquer projeto precisa de um longo e caro processo de desenvolvimento, coisa que somente governos pareciam ser capazes de custear. Mas não é bem assim.

Enquanto alguns governos têm como política de estado incentivar agricultura familiar e extensiva como solução para alimentar uma população que não para de crescer, empresas privadas com pouco ou nenhum apoio oficial estão tratando o mesmo problema de forma oposta. Diminuindo as áreas de cultivo e usando a tecnologia para aumentar muito a eficiência da produção.

Recentemente a Philips abriu na Holanda sua uma fazenda indoor chamada GrowWise City onde em 2.500 m2 cerca de 10.000 pesquisadores estão trabalhando para criar receitas de crescimento de plantas com luz LED, sem solo e sem sol. É uma verdadeira fazenda vertical totalmente hermética, limpa, sem nenhum ar ou iluminação naturais. A instalação emprega um sistema de iluminação LED totalmente customizado para que cada tipo de cultivo possa crescer de forma ideal, completamente orgânico e sem pesticidas. Assista o video abaixo.

Uma instalação como esta pode ser replicada em qualquer lugar do mundo e produzir alimentos o ano todo, independente do clima. Com as áreas de cultivo se extinguindo e com a demanda por alimento crescendo mais do que a população, esse tipo de fazenda pode ocupar espaços ociosos nas cidades, viabilizando uma produção local, com baixo uso de água, reduzindo a distância ao consumidor e assim o descarte de alimentos.

Por enquanto o projeto está focado no cultivo de folhas e ervas mas em breve vai partir para a produção de alimentos com base em carboidratos como trigo e batatas.

O custo de um pé de alface da Philips ainda é proibitivo, mas são iniciativas como essa que irão alimentar o mundo no futuro. Movimentos agrários não terão vez nesse tipo de agricultura.

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