Here, there, everywhere

Sabe quando você é acordado por um som que não entende de onde vem, mas que se encaixa perfeitamente com o que estava sonhando naquele momento?

Pois é, foi isso que aconteceu comigo e com um monte de gente no primeiro dia de Maio de 1977. Era o som da Rádio Cidade nascendo no Rio de Janeiro e virando ao avesso as FM’s brasileiras.

Até aquele dia, quem queria saber das novidades musicais tinha que ouvir rádio AM e frequentar lojas como a Modern Sound, a Gringo’s ou a Billboard da Rua Almirante Gonçalves em Copacabana. Mas aí surgiu a Cidade, onde os locutores além de conversarem conosco, tocavam o que a era sucesso lá fora e, se tivéssemos sorte, até o que a gente pedia para escutar. Foi uma revolução. Pareceu que o mundo saía dos alto falantes dos nossos radinhos, que o futuro tinha chegado enquanto nós dormíamos.

Hoje, em pleno século XXI, quem gosta de música e de rádio pode participar de um fenômeno parecido mas muito amplificado. As rádios on-line estão causando uma revolução parecida com a da Rádio Cidade só que em escala planetária em abrangência e relevância. Uma FM hoje pode “pegar” no mundo inteiro.

Com um clique você pode ouvir uma rádio alternativa do Village em NY e com outro sintonizar uma religiosa em Calcutá. Se você um dia acordou querendo só escutar Elvis Presley ou Trio Mocotó, tem rádio pra isso. Estilos de música então, nem se fala: clássicas, jazz, hip-hop, blues, étnicas e o que mais você quiser. As rádios on-line são quase sempre temáticas. Há até aquelas que permitem você mesmo fazer a sua programação personalizada, mas isso, do meu ponto de vista, é uma incoerência. Para mim uma das melhores coisas de escutar rádio é não saber qual será a próxima música. Playlist? Pfffffff…

Há muitas outras características nas rádios on-line que empurram essa revolução adiante. Uma é que muitas delas não existem fora da internet, quer dizer: não são versões ou repetidoras da programação de uma rádio normal. Têm portanto muito mais liberdade na programação. Nem poderia ser de outra forma com ouvintes no mundo todo e em fuso-horários diferentes. Mas assim, e por isso mesmo, procuram se diferenciar umas das outras tanto pela programação como pela regionalização. Veja só: enquanto escrevo este texto no Rio, estou navegando entre o jazz da Grooveyard no Canadá e a RAC 105 de Barcelona onde me mantenho informado sobre as notícias e os sucessos locais além de treinar meu catalão. Isso é regionalização globalizada!

Nas duas o ouvinte tem contato direto com os programadores, podendo sugerir músicas que entram na programação conforme sejam aprovadas. Exatamente como era na Rádio Cidade. Com colaboradores do mundo inteiro, e não só de uma cidade, dá para imaginar a enorme riqueza e ecletismo dessas rádios.

Alguns podem perguntar onde está a poesia dessas rádios feitas de cliques e desses ouvintes que navegam olhando para uma tela e não mais nas ondas, mas nos bits do rádio. Podem até dizer que quem ama rádio de verdade, prefere mesmo é subir no telhado com um bom e velho Transglobe e passar horas girando a antena à procura de estações distantes, com péssima recepção e que no dia seguinte não consegue mais sintonizar. Nada contra, mas eu já ouvi também (ou talvez até tenha alguma vez afirmado) que quem ama música de verdade nunca compraria um CD. Ia ficar sempre no vinil mesmo. Pois sim.

Hoje, subir no telhado significa conectar-se na internet e o Transglobe pé o seu computador ou smartphone. O que se perde em poesia ganha-se em amplitude, variedade e acessibilidade. Estações e locutores do mundo todo estão ao alcance dos nosso dedos como antigamente estavam no rádio do carro.

Um dos melhores exemplos é esse aqui: http://radio.garden/live/.

Agora não mais parece que o rádio do futuro vai chegar enquanto a gente estiver dormindo, a nova revolução está acontecendo diante dos nossos ouvidos e no mundo inteiro ao mesmo tempo. O susto que eu levei ao acordar em Maio de 77 se repete todos os dias que percebo que o novo rádio pode, além de nos dar inéditos prazeres ao ouvido, permitir imaginar que há outros ouvintes revolucionários a milhares quilômetros de distância e em países tão diferentes, levando o mesmo susto, e batendo o pé no mesmo ritmo que eu.

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