O leitor tem valor

Há algum tempo venho acompanhando a mudança na qualidade dos comentários de leitores em postagens feitas pelos grandes jornais nas rede sociais e como eles, os jornais, não parecem interessados no que pensam seus consumidores, os leitores. Já estava pronto para escrever sobre o assunto quando aparece o Jeff Bezos e me dá uma rasteira. Épica.

Com a onipresença das redes sociais, que muitas vezes se confundem com a própria internet, o leitor tem muito mais acesso a informação do que tinha quando consumia conteúdo só no papel ou tinha que navegar por vários sites diferentes para conhecer pontos de vista sobre um assunto.

Ao mesmo tempo, com a quantidade enorme de conteúdo sendo produzido por empresas, veículos e pessoas, a busca pelo clique com chamadas cada vez mais espetaculosas seja sobre o assunto que for, se tornou regra. Até a mídia tradicional, aquela que nasceu e cresceu no papel se rendeu a isso por necessidade, preguiça ou inércia.


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O despreparo desses veículos para lidar com o digital – zzzzzzzzzzzzzzzzzz – fica evidente com o pouco ou nenhum caso que dão aos comentários feitos por seus leitores nas redes sociais. É raro ver um grande veículo respondendo, discutindo ou apenas curtindo um comentário sobre uma notícia ou artigo publicado. Em geral o leitor acaba falando para outros leitores, nunca para o jornal.

Então juntamos três novos comportamentos on line: o acesso mais fácil à informação, a “necessidade” do click e os comentários de leitores ignorados e temos uma tempestade perfeita que só amplia a desvalorização e o descolamento da grande mídia com a nova realidade de seus consumidores.

Ainda acostumada a um ritmo muito mais lento de publicação, ainda acreditando ter o monopólio da verdade e da opinião e a poder gerenciar a reação de seus leitores, grande parte da grande mídia ainda prefere tratar o leitor como passivo, desinteressante, como alguém cuja opinião pouco influencia sua linha editorial desde que ele clique no conteúdo apresentado.

A grande mídia não precisa contratar consultorias multidisciplinares ou palestras do Castells para descobrir que seu leitor é melhor do que antes. Que ele não precisa mais dos grandes jornais para pensar. Basta acompanhar os comentários em postagens que buscam o click com chamadas pouco comprometidas com os fatos ou excessivamente comprometidas com o clique.

Sem entrar no mérito dos fatos ou das notícias, lendo os comentários dos leitores fica claro que eles estão muito melhor informados do que imaginam os veículos. Mais do que isso, o leitor agora espera que o jornal o trate com o respeito intelectual que merece.

Não é física quântica, é um jornalismo novo, ativo, de duas mãos que jornalistas comuns não foram preparados nem estão acostumados a fazer. Por isso, como tem acontecido de forma recorrente, só olhares externos têm sido capazes de transformar indústrias tão refratárias a mudanças como os veículos jornalísticos.

É nessa cena que o Bezos entra e me dá a rasteira épica.

Entender que a opinião dos consumidores sobre seus produtos é hoje parte fundamental de qualquer negócio. Entender essas opiniões e ainda transformá-las em um ativo de valor é algo mais, algo que poucas empresas conseguem fazer. Nenhuma como a Amazon.

3016734-poster-jeff-bezos-amazon-washington-post-1024x576A importância de captar e apresentar avaliações e recomendações feitas pelos consumidores sobre os produtos que compram na empresa de Jeff Bezos é um dos pilares do seu negócio e tornou-se modelo num mercado hiper competitivo. Para aqueles fornecedores atentos é também um canal inigualável para entender como seus produtos são usados e quais melhorias seus compradores desejam. Se isso funciona no e-commerce, por que não funcionaria num jornal on-line? Por que comentários de leitores são menos relevantes ou têm menos valor do que os de compradores da Amazon? Bezos, dono na pessoa física do Washington Post sabe que um vale tanto quanto o outro, sabe que comentário é um ativo, e além da minha rasteira aproveita para dar mais uma aula de visão a mais uma indústria míope.

Semana passada o jornal da capital americana anunciou que estava lançando uma newsletter semanal por email – newsletter voltou a ser a queridinha e salvadora da pátria para muitos negócios on-line – com os melhores e mais relevantes comentários postados por seus leitores selecionados por um editor do jornal. Um novo produto com a garantia de qualidade do Washington Post, mas com conteúdo produzido por leitores, de graça. Os comentários serão selecionados com base na popularidade, qualidade e histórico do comentarista e para isso, vejam só, um jornalista terá que ler o que seu público escreve, num plot twist que não estava no roteiro.

Chamada de Read These Comments, a iniciativa do Post é um dos melhores exemplos que já vi de valorização da qualidade e da inteligência do leitor de jornais. É também um belo exemplo de humildade do veículo além de um novo canal de contato e, sem iscas, geração de tráfego para seu site.

Alguns dizem que a mídia está morrendo, e está mesmo, de velha. Mas tem gente que insiste que ela pode ser rejuvenescida usando não só a tecnologia, mas também renovando o papel do jornalista e valorizando quem um dia a fez tão grande e relevante, o leitor.

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