A velha indústria e os jovens do milênio contra o Detran

Outro dia, atravessando num sinal, quase fui atropelado sem querer por uma aluna de autoescola que tirou o pé da embreagem com o carro engrenado. Depois do meu susto e do sorriso amarelo dela, continuei caminhando e lembrando quantas vezes isso também tinha acontecido comigo quando estava aprendendo a dirigir. Foi aí que me caiu a primeira ficha: trinta e três anos depois que tirei minha primeira carteira de motorista ainda se aprende a dirigir em carros com transmissão mecânica. Mal terminei esse pensamento me caiu outra ficha: será que o Detran até hoje não permite que se usem carros com câmbio automático em exames?

Esse é mais um capítulo triste da eterna miopia tecnológica que assola nossos legisladores.

Fui pesquisar e descobri que é verdade. Em pleno século XXI, com as vendas de carros automáticos crescendo mais de 30% ao ano, carros que estacionam sozinhos e frotas de carros autônomos sem motoristas circulando por algumas cidades do mundo, nosso Detran aqui entende que não estamos preparados, que não é seguro abandonar a embreagem mesmo sabendo que as principais causas de acidentes de trânsito não têm qualquer relação com o tipo do sistema de câmbio do veículo.

Isso exemplifica muito a aversão histórica que governos e legisladores têm pela tecnologia em geral e principalmente pelas tecnologias que diminuem seu poder controlador sobre a sociedade, mesmo se elas tornam a vida do cidadão mais segura e confortável.

Aí eu me pergunto: como um Detran que até hoje ignora os veículos automáticos, irá tratar os carros, ônibus e caminhões autônomos que já são uma realidade?

A indústria automotiva

Poucas áreas no Brasil têm tantos incentivos governamentais quanto montadoras de veículos. É até compreensível que uma indústria que emprega tanta gente – cada vez menos – e possui uma cadeia produtiva tão longa, demande alguma atenção especial. E essa demanda especial vai continuar quando essas mesmas marcas e fábricas que hoje montam carros comuns, passarem a montar veículos autônomos. Serão elas a pressionar nossos legisladores por atualizações nas leis e assim poderem manter empregos, investimentos e impostos.

Quase todas as grandes montadoras já investem forte em tecnologias que dispensam motoristas e em negócios de compartilhamento de veículos. Para elas no futuro ninguém vai precisar ter carro nem muito menos carteira de motorista.

Outra pressão, muito menos intensa, virá de uma nova geração de jovens que não tem como prioridade aprender a dirigir.

Os jovens e a cidade

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Emissões de novas habilitações por faixa etária. Fonte: Gazeta do Povo

Quem tem trinta anos ou mais, sabe que muita gente acordava no dia do seu aniversário de dezoito anos na porta da autoescola. Tirar a habilitação não era só um rito de passagem ou uma necessidade, era uma declaração de independência, desde que os pais emprestassem o carro, claro.

 

Com a migração da população para os centros urbanos, a melhora dos serviços de transporte público nas grandes cidades e com opções como ciclovias e Uber, saber dirigir deixou de ser relevante, a liberdade de ir e vir hoje independe de uma habilitação.

Outras questões importantes, principalmente entre os jovens, como meio ambiente e sustentabilidade, também ajudam na desglamurização do carro. E entre gastar R$ 2.000 e muitas horas numa autoescola ou comprar o último modelo de smartphone, o que você acha que um jovem prefere?

Em 2013 foram emitidas 11,3 milhões de novas habilitações no Brasil, dois anos depois esse número caiu para pouco mais de 5 milhões. Uma queda de 53%. Em São Paulo entre 2014 e 2015 foram emitidas 20% menos novas carteiras de motorista. Claro que a crise colabora para esse cenário, mas não é nem de longe a causa principal da queda.

As mudanças na mobilidade urbana coletiva e individual estão apenas começando e ainda falta muito para que tenhamos todos acesso aos confortos e a segurança que a tecnologia já permite. O que não podemos permitir é que aqueles que deveriam incentivar, viabilizar e regulamentar as novas formas de transporte prefiram ficar parados no tempo simplesmente porque lhes convém. É melhor começar a se mexer em direção ao futuro senão um trem carregado de interesses, dinheiro e empregos vai passar por cima.

Sugiro começar permitindo que exames para tirar carteira de motorista possam ser feitos com carros automáticos. Já nos colocaria nos anos sessenta.

 

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