Política e educação para uma nova era

Considero um privilégio viver nessa virada de século e poder presenciar, participar, colaborar e usufruir da revolução na sociedade que está sendo viabilizada pela tecnologia, mesmo com todos os percalços inerentes a um processo veloz e intenso como esse.

Nunca achei que essa fosse uma sensação unânime pois vejo que há quem não se impressione, quem não perceba ou quem ainda não tenha efetivamente sentido o impacto real dessas mudanças no seu dia a dia. Há também aqueles que percebem, sentem o impacto, mas, mais do que negar, mais do que tentar tirar proveito das enormes oportunidades que estão surgindo, trabalham contra essa jornada inexorável. O pior é que são essas as pessoas que tentam mandar no nosso futuro.

Acompanhando as campanhas dos candidatos a vereador e prefeito para as próximas eleições, vejo que, com raríssimas exceções, seus programas e propostas não tiram proveito efetivo para políticas públicas desse momento único que estamos passando. As intenções parecem ser continuar fazendo tudo da mesma maneira, com os mesmos objetivos do século passado. Não vejo na maioria dos candidatos o olho num futuro que será muito diferente do que eles gostariam que fosse. E são nas propostas para a educação que isso se torna muito evidente, pois trata-se de um processo a médio-longo prazo que não interessa para quem só pensa nos próximos quatro anos. Empurrar com a barriga as mudanças necessárias nessa área só vai nos levar para trás.

Não vi nenhum candidato dizendo claramente que temos que mudar tudo na educação. Não vi nenhuma proposta que vise preparar minimamente o aluno para o mercado quando ele completar sua graduação. Continuam a prepará-lo com práticas e conteúdos que faziam sentido na sociedade pré-digital.

Urge darmos um salto para tentar alcançar índices que permitam que nossos futuros profissionais possam colaborar nas revoluções que irão se tornar mais globais, transformadoras e frequentes. Mas do jeito que vamos a distância desse objetivo só aumenta.

Um exemplo

Nos EUA o governo federal lançou em janeiro de 2016 a “Computer Science for All Initiative”, iniciativa que pretende oferecer conhecimentos de matemática e computação a todos os alunos do jardim de infância aos doze anos num investimento de mais de US$ 4 bilhões que responde ao seguinte questionamento colocado pelo presidente Barack Obama:

“Vivemos em uma época de mudanças extraordinárias que afetam a maneira como vivemos e o modo como trabalhamos. Novas tecnologias estão substituindo qualquer emprego onde o trabalho pode ser automatizado.  Trabalhadores precisam renovar suas habilidades para evoluir.  Estas mudanças não são novas e só vão acelerar.  Então a pergunta que temos que fazer é: ‘Como podemos ter certeza que todo mundo tem uma chance de sucesso nesta nova economia?‘ “

É disso que estou falando. Não vejo nas propostas de governo uma real preocupação de dar o salto necessário, de parar de olhar para trás e resolver os problemas do passado olhando para o futuro.

Formação e trabalho

Se os benefícios diretos e indiretos do ensino de ciências da computação não bastassem para entendermos sua enorme relevância – já tratamos disso aqui e aqui – talvez um estudo da Forrester mostre isso mais claramente. A consultoria prevê que até 2025, menos de uma década, tecnologias como inteligência artificial, robôs, bots e automações em geral irão substituir 16% da força de trabalho americana enquanto irão criar apenas 9% de novos empregos. Vão desaparecer 7% dos empregos nos EUA somente por conta dessa tendência.

Enquanto funções administrativas, de logística, transportes e call-center, todas com baixos níveis de salário e especialização, serão as primeiras a desaparecer, o aumento de oportunidades se dará em áreas como monitoramento de robôs, análise de dados, especialistas em automação e curadoria de conteúdo. Você vê algum de nossos formuladores de políticas educacionais apontando que a formação dos estudantes brasileiros deva ir nessa direção?

Se olharmos com mais detalhe e esticarmos um pouco o prazo das projeções veremos que não são só atividades repetitivas ou de baixa especialização que irão ter menos relevância no futuro. Profissionais com alto grau de especialização estão começando a ser substituídos por máquinas e seus clientes nem percebem a diferença.

A família Watson

Recentemente o escritório americano Baker & Hostetler anunciou que contratou a plataforma de inteligência artificial da IBM Ross para atuar na sua área de falências onde trabalham cerca de cinquenta advogados. Ross, “o primeiro advogado com inteligência artificial do mundo” foi criado em cima do computador cognitivo Watson da IBM que é capaz de ler, entender, pesquisar e postular hipóteses antes de tirar suas conclusões, ao mesmo tempo que monitora os bancos de dados atrás de decisões que possam afetar algum caso conhecido por ele. Isso tudo em alta velocidade.

Será que a OAB e nossas universidades que despejam 90.000 bacharéis em direito todo ano no mercado (são dez bacharéis por hora) sabem disso? E se souberem, como irão (re)agir?

Escolher usar um computador como ajudante de advogados é surpreendente, mas o que aconteceria se os clientes não soubessem que estão lidando com uma máquina?

Jill é responsável pela moderação do fórum de perguntas e respostas de 300 estudantes de um curso de ciências da computação na Universidade Georgia Tech. Fórums desse tipo recebem cerca de 10.000 mensagens por semestre e a falta de respostas apropriadas é uma das principais razões para que estudantes abandonem a participação no curso. Depois de três meses trabalhando sob constante monitoramento de professores, Jill passou a responder sozinha muitas das questões colocadas além de postar lembretes e propor temas para discussões no fórum. O que os alunos não sabiam é que Jill é prima de Ross, ambos foram criados sobre a mesma plataforma de inteligência artificial da IBM, o Watson.

Jill tirou uma carga de trabalho importante dos moderadores humanos permitindo que eles pudessem se dedicar a atividades de maior impacto acadêmico e assim melhorar a qualidade do curso, a satisfação dos alunos e seus resultados.

Não é uma plástica que está acontecendo, é um transplante de cérebro. Nem mesmo profissões com alto índice de intelectualização estão livres da reforma radical que está acontecendo no mercado de trabalho, e nossa educação, que deveria se antecipar ao movimento, se está percebendo isso, finge que não vê.

Nossos políticos, legisladores e executivos não parecem muito preocupados com o que precisa urgentemente ser feito. Iniciativas públicas como a criação da Base Nacional Comum Curricular estão muito longe de propor o que precisa ser feito. Parece mais do mesmo, parece não haver interesse em formular propostas que realmente causem a revolução necessária na educação, pois isso exporia a miopia histórica e uma persistente falta de visão para realmente preparar nossos alunos para o mundo do futuro, qualquer futuro anterior, mas principalmente esse que chega cada vez mais rápido e que agora está apenas a duas eleições de distância.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s