Sua carteira vai ficar ainda mais vazia na Nova Economia

Você já deve ter notado que nada é intocável na Nova Economia. Se há uma área, indústria ou serviço que possa ser virado do avesso com o uso de novas tecnologias, ele será. E como temos visto, isso tem acontecido muito em áreas que até então pareciam protegidas por altas barreiras de entrada, regulamentações, concessões governamentais ou, como no caso dos bancos, pelo poder do dinheiro.

Mas nenhuma dessas barreiras foi capaz de impedir o surgimento das mais novas meninas dos olhos de empreendedores e investidores, as empresas da área de Fintech, ou Finance Technology, tecnologia financeira na sua abreviação em inglês.

Não confunda tecnologia financeira com tecnologia bancária pois elas são como água e óleo. Enquanto a bancária visa atender os serviços prestados por bancos, a financeira cresce com serviços que os bancos não têm conseguido oferecer na forma que o novo consumidor precisa. Que nem sempre são novos serviços, mas novas formas de usar velhos serviços com interfaces e processos mais ágeis agregam valor a produtos mais do que comoditizados como são os bancários. Tudo isso sem abrir mão dos bancos, por enquanto.
Atuando em áreas que vão desde seguros até empréstimos para pessoas físicas e jurídicas, as fintechs não têm somente uma forte base tecnológica e um foco mais fechado em serviços básicos, elas usam a infraestrutura da internet e muito big data para ao mesmo tempo que personalizam seus produtos, reduzem os seus riscos. Faz sentido pois quanto melhor você conhece seu cliente, melhor pode atendê-lo com menos risco de levar um calote. Já falamos sobre esse círculo virtuoso que o big data permite no artigo sobre Negócios Sociais.

Enquanto o sistema bancário ainda não pode ser prescindido, tem gente se aproveitando de sua evolução tecnológica para criar uma camada de serviços que atenda às necessidades de consumidores que cada vez menos irão frequentar agências bancárias.

bii-freq of bank visits10.23.15

Fundado em 2012 por dois empreendedores com experiência na área financeira, o Guia Bolso é um sistema que agrega e monitora múltiplas contas de bancos diferentes em um único aplicativo com versões web e mobile atualizando a movimentação de forma automática.
O aplicativo exibe um extrato consolidado das contas do usuário permitindo um melhor controle do dinheiro e assim uma melhor saúde financeira. Segundo um dos fundadores a saúde financeira do cliente melhora até 15% depois de um mês de uso do Guia Bolso.
Se por um lado o serviço não precisa de nenhuma autorização dos bancos para funcionar, o cliente sim precisa fornecer a senha de acesso à suas contas o que pode gerar uma certa desconfiança, mas como o aplicativo não oferece ainda nenhuma movimentação nas contas, que em geral são feias com outra senha e validação via token, a questão da segurança fica minimizada.

De qualquer maneira é bacana ver como cresceu a confiança dos consumidores com transações on line, pois não faz muito tempo discutíamos a segurança de fazer compras com cartão de crédito na internet e hoje damos acesso à nossas contas de banco a aplicativos seguros.

guia_bolso_android
Ainda não está claro como o Guia Bolso vai ganhar dinheiro, atualmente ele é inteiramente gratuito, mas com investidores pesados que já apostaram mais de R$ 30 milhões no projeto, em breve eles devem apresentar alguma novidade, seja cobrando por serviços premium ou sendo comprados por alguma grande instituição financeira que prefira literalmente pagar para ter o que uns garotos da fintech aprontaram. Não será a primeira vez.

Precisamos de serviços financeiros, mas não de bancos.
– Bill Gates –

Com mais de 1.000 empresas no segmento de fintech, os EUA são os líderes em inovação nessa área – por aqui temos cerca de 100 empresas nesse segmento. Em ambos países quase todas são startups com poucos anos de existência. Mas isso não quer dizer que as grandes da tecnologia estão paradas.

image_20160308_100500

Google (Android), Apple e Samsung entre outras criaram suas próprias plataformas de pagamentos móveis para atender seus clientes que querem sair de casa somente com o celular na mão. Com pequenas diferenças, as soluções permitem que o dono do smartphone cadastre seus cartões de crédito no aparelho e os deixe em casa. Quando quiser pagar uma compra basta aproximar o celular da máquina leitora de cartões – que deve possuir a tecnologia embarcada – e confirmar a transação com uso de senha ou da impressão digital.

Nenhuma dessas três soluções prescinde das operadoras nem dos bancos, muito pelo contrário. São todos parceiros no desenvolvimentos das tecnologias necessárias, principalmente quanto à segurança, e na disseminação do produto que ainda está longe de ser ubíquo como são os smartphones. A idéia é facilitar ainda mais o uso do cartão de crédito como meio de pagamento seguro utilizando um dispositivo que está o tempo todo na mão do consumidor.

Mobile payment ainda não é uma unanimidade e está disponível em poucos países, o Apple Pay por exemplo conquistou até agora somente 20% dos usuários que possuem os aparelhos compatíveis nos EUA. O método tem ainda um longo caminho a percorer.

Enquanto o mobile payment não deslancha e papel moeda não é extinto o cartão de crédito ainda é uma forma de pagamentos segura e amplamente adotada por compradores e vendedores. Mas a experiência de uso e as taxas de juros e tarifas dos cartões tem sido um empecilho para o aumento de seu mercado. Foi com esse cenário em mente que outros dois brasileiros criaram em 2014 a Nubank, operadora de cartão de crédito isento de anuidade, com juros rotativos mais baixos do que o mercado, que não faz propaganda e que tem 300.000 pessoas na fila de espera por um cartão seu.

Na mesma linha de definição clássica de negócio disruptivo, a Nubank apareceu do nada desafiando grandes operadoras e oferecendo, além de tudo um atendimento menos burocrático e ferramentas simples para controle de gastos, coisas que as operadoras existentes não conseguem desenvolver por estarem muito ocupadas como suas enormes operações no dia a dia.

Nubank2Com uma operação enxuta e parcerias com pequenos bancos para o crédito rotativo de seus clientes, a Nubank não possui agências, não envia extratos de papel e todo o atendimento é feito por chat, telefone ou email.

Usando a bandeira Mastercard, o Nubank, como a maioria das operadoras de cartão, é remunerada com uma porcentagem da cada transação efetuada e já recebeu mais de R$ 200 milhões em investimentos quando foi avaliada em USD 500 milhões, a caminho de se tornar o primeiro unicórnio brasileiro.

 

Rasgando o dinheiro

Com a evolução dos meios de pagamento e serviços financeiros para o meio digital, fica evidente que cedo ou tarde o dinheiro em forma de papel moeda vai desaparecer. Já evidente a redução enorme no seu uso diário com cada vez mais estabelecimentos, serviços e profissionais liberais aceitando pagamento no cartão de crédito.

Neste exato momento você deve ter na sua carteira um valor em dinheiro muito menor do que tinha dez anos atrás, certo?

Com o crescimento do uso de cartões de crédito e débito e pagamentos e transferências on-line e pelo celular, usar dinheiro vivo é cada vez menos comum. O dinheiro em espécie é um animal em extinção.

Governos iriam adorar que todas as transações fossem eletrônicas pois além de não terem mais que imprimir dinheiro, faria com que fosse bem mais difícil sonegar impostos.

Para o indivíduo comum e os comércios em geral essa tendência também é boa pois traz mais segurança não só na transação como em não ter que lidar com dinheiro vivo e por isso serem alvo de assaltos. A Dinamarca já está até incentivando esse movimento e permitindo que alguns tipos de atividades não sejam mais obrigadas a aceitar pagamento em espécie.

Nos EUA os comércios perdem cerca de US$ 40 bilhões por ano em roubos de dinheiro vivo enquanto os bancos perdem US$ 30 milhões pelo mesmo motivo e apenas 15% das notas em circulação são usadas em transações lícitas. O resto é usado por quem não acredita ou confia no sistema financeiro e quem deseja burlar o fisco.

Mas nem tudo são flores num modelo sem dinheiro vivo. Com as transações eletrônicas podendo ser rastreadas, abrem-se questões importantes sobre privacidade, que já é tão discutida mesmo agora. Um dos desafios de criar um sistema financeiro totalmente eletrônico é dar segurança e confiabilidade para que o usuário se sinta confortável para utilizá-lo.

O processo de transformar uma economia em totalmente eletrônica é longo, lento e depende de muita negociação, mas alguns pequenos passos já podem ser dados como abolir moedas de baixo valor (que são mais caras de produzir do que seu valor de face), tirar de circulação as notas de maior valor pois são elas as mais usadas em atividades ilícitas e incentivar o uso de tickets eletrônicos em serviços de grande uso como transporte público. E Jundiaí, no interior de São Paulo sabe disso.

A cidade implantou recentemente um sistema para pagamento de passagens de ônibus com cartões de crédito ou débito visando aumentar a segurança de passageiros e motoristas reduzindo a circulação de dinheiro nos coletivos. Além de evitar a sonegação, claro. O sistema ainda é meio rudimentar pois solicita escolhas e senhas para um pagamento de valor muito baixo, coisa que não existe em economias mais avançadas, mas é um primeiro passo louvável.

Mas nenhum outro país está caminhando mais rápido para um futuro sem papel moeda como a Suécia onde vendedores de rua aceitam crédito, o dízimo da igreja pode ser pago com débito e os alguns bancos trabalham mais com cédulas. Lá, onde cheques não são mais usados, somente 20% dos pagamentos são feitos com dinheiro enquanto a média mundial é de 75% de acordo com o Euromonitor International. Talvez mais próximo do que o desaparecimento do papel moeda, esteja o desaparecimento das moedas nacionais como as conhecemos.

Bitcoin

Criado em 2009 por um obscuro grupo chamado Satoshi Nakamoto, Bitcoin não é exatamente uma moeda digital embora se comporte como tal, mas é todo um sistema P2P de transações digitais, no qual uma das suas partes é a moeda Bitcoin. A outra parte é o Blockchain. Esse sistema funciona à margem do mundo bancário e de governos sendo por isso mesmo independente de questões econômicas e políticas locais além de uma opção para transações ilegais.

Como temos visto, as transações digitais sofrem com questões de segurança e privacidade e são exatamente nesses dois pontos que o Bitcoin é mais forte.
Todas as transações válidas usando Bitcoins formam parte de uma única sequência global e imutável em ordem cronológica, o Blockchain, tornando virtualmente impossível sua alteração. Quase como uma tatuagem, indelével pois depois de realizada passa a integrar o mesmo corpo onde estão todas as outras tatuagens impossíveis de remover sem deixar rastros. Essa sequência é conhecida e armazenada por todos os que operam Bitcoins. Todos conhecem todas as transações que são realizadas. Quanto maior a quantidade de transações, mais dificl alterar a cadeia formada por elas.

Blockchain é uma rede descentralizada de garantidores que gerenciam individualmente, mas de forma interdependente, certificados de transações em geral, que não precisam ser apenas financeiras. Cada transação é identificada por um número único e irrepetível e são anônimas.

A validação de cada transação é feita por um complexo sistema matemático que não vale à pena ser descrito aqui, mas vale mencionar que esse sistema consome uma grande quantidade de energia computacional para rodar, e energia custa um dinheiro que muitas vezes não é recuperado pelo valor recebido na transação. Por isso gerenciar Bitcoin é uma atividade que demanda alto conhecimento e investimento em hardware e tecnologia. Se você está pensando em entrar no negócio, fique sabendo que um computador desses que a gente encontra no mercado não têm capacidade de processamento suficiente para trabalhar com Bitcoins.

Bitcoin-Subway-PA

Embora seja uma moeda 100% digital e apátrida, o Bitcoin é conversível em moedas locais como qualquer outra e começa a ser aceita no comércio em geral. No momento em que escrevo esse artigo, 10/3/2016, um Bitcoin vale aproximadamente USD 415,00.

Talvez mais do que qualquer outra coisa o dinheiro na Nova Economia vai ser muito diferente do que é hoje como prevê o editor da revista Wired David Wolman no seu livro The End of Money. Iniciativas não faltam.

Com certeza é das mais complexas mudanças que nossa sociedade irá sofrer, pois envolve literalmente toda a cadeia de produção e consumo que sustenta a economia, mas é uma mudança inevitável. Além de trazer mais segurança e transparência, com ajustes técnicos e legais na questão da privacidade o dinheiro digital, seja no formato que for, irá prevalecer e o papel talvez se torne uma moeda exótica, como hoje é o Bitcoin. É o dinheiro que faz o mundo rodar mesmo que a gente não o veja mais dentro das nossas carteiras.

Este é o penúltimo artigo da série sobre a Nova Economia e seus impactos na sociedade. No último artigo irei tratar de quem está no centro disso tudo, as pessoas que estão fazendo acontecer e que no fundo são os que definem nosso futuro.

. . .

Se você quiser levar a discussão sobre a Nova Economia e seus impactos na sociedade e nos negócios para um grupo, escola ou empresa, entre em contato: contato@setze.com.br.

4 comentários sobre “Sua carteira vai ficar ainda mais vazia na Nova Economia

  1. Pingback: A Nova Economia e a Nova Sociedade – o resumo | Panora

  2. Pingback: PanoraMix #02 | Paco Torras | PANORA

  3. Pingback: PanoraMix#07 | Paco Torras | PANORA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s