IoT – Como a internet das coisas vai mudar sua vida

Uma das características mais recorrentes da nova economia é se apropriar de um processo, uma atividade e melhorá-los com o uso da tecnologia. Mais do que melhorar, na verdade o que a gente tem visto é que esses processos são tão profundamente modificados que a gente mal reconhece suas origens, nem lembra mais como eram antes e, quando lembra, fica imaginando como era possível que aquilo funcionasse daquela maneira.

Mas há uma nova área na qual isso vai além, transcende processos e atividades conhecidas, ignora limites físicos ou técnicos, causa disruptura onde nem havia nada para romper e é praticamente invisível. É a Internet das Coisas, ou IoT no seu acrônimo do inglês de Internet of Things que vamos usar ao longo desse artigo.

A rede das redes

Resumindo muito, IoT é a conectividade ativa entre sistemas e dispositivos, em geral pequenos e móveis, que até então não eram conectados a nada além de tomadas ou baterias e que hoje trocam informações e tomam decisões com pouca ou nenhuma interferência humana. TVs, geladeiras, termostatos, relógios são os mais óbvios, até roupas, carros, biochips e aparelhos inéditos transmitindo, analisando e distribuindo informações entre si.

Mas quem já trabalhou em logística ou no grande varejo sabe que conectar sistemas que juntos tomam decisões independentes não é nada novo. Automatização de processos, principalmente de estoques, vendas e pedidos acontece há décadas. Uma caixa registradora que na hora da venda dá baixa no estoque que faz o pedido ao fornecedor que entrega na data e é recebido outra vez pelo estoque sem ninguém botar a mão não é novidade. O que é novidade é que esse tipo de processo inteligente veio para dentro das nossas casas, carros, empresas e cidades e está acontecendo em um nível muito além do imaginado poucos anos atrás. O movimento é tão grande que se estima que 50 bilhões de dispositivos farão parte da Internet das Coisas em 2020. Muito, mas muito mais do que gente.

Agora você imagina que esses bilhões de objetos trocando e armazenando dados o tempo todo geram uma quantidade enorme de informações e como na nova economia informação mais do que nunca é dinheiro, surgem também enormes oportunidades.

Como a IoT pretende conectar tudo e todos o tempo todo de forma ativa e inteligente, um mínimo de categorização é necessária até que a gente não perceba mais que estamos conectados a tudo e a todos o tempo todo. Num segundo momento, todas essas categorias irão se fundir numa coisa só, a rede das redes.

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Os cinco esses da IoT

                smart wearables – são as roupas e acessórios inteligentes. Eles vão desde pijamas com sensores embutidos que monitoram o seu sono – temperatura, qualidade, tempo, respiração, etc. – alteram o termostato durante a noite e ligam a cafeteira na hora que você acorda, até um tênis de corrida que analisa sua pisada em tempo real e modifica a estrutura da sola para melhorar a performance. Mas os mais populares são os activity trackers, aparelhos ou apps que monitoram as atividades do dia a dia e fornecem relatórios mostrando como nosso corpo se comportou durante o período que se tornaram não só onipresentes, baratos e completos, mas também um dos mais promissores negócios da nova economia.

Em mais uma iniciativa do Google longe do seu negócio principal, o Projeto Jacquard quer criar tecidos que sejam sensíveis ao toque, gestos, temperatura, umidades, etc. usando as mesmas máquinas de tecelagem que hoje são usadas para fabricar os tecidos que vestimos e estofamos móveis.

Isso já é possível com o desenvolvimento de fios que combinam algodão, poliéster ou seda com finíssimos fios de ligas metálicas que são imperceptíveis ao toque, mas que funcionam como o touchpad de um laptop ou o touchscreen do seu smartphone. Esses fios são conectados a um chip do tamanho de um botão capaz de diferenciar um gesto deliberado de um simples toque no tecido.

Soluções desse tipo são mais um exemplo de que estamos caminhando para um futuro totalmente conectado, mais uma peça do quebra-cabeças que já inclui, relógios, termostatos, celulares, TVs, etc. No futuro provavelmente alguns botões e interruptores da sua casa serão substituídos por superfícies sensíveis utilizando essa tecnologia.

As pessoas já gostam quando a tecnologia as ajuda no dia a dia e gostam mais ainda quando ela é invisível, quando não é preciso nem pensar para que ela seja útil.

“Se pudermos tecer sensores como um componente têxtil – diz Ivan Poupyrev do Google – estaremos nos afastando dos eletrônicos e tornando interativo um dos materiais mais básicos do mundo. ”

                smart home – é a já tradicional automação residencial só que anabolizada. Casas conectadas são o que de mais real e prático temos por enquanto, onde monitoramento remoto por câmeras e abertura de portas e controle de temperatura por aplicativos no celular, já são aplicações comuns. Dentro de casa as SmarTVs conectadas na internet já são mainstream, mas a geladeira que controla o que entra e sai, prepara uma lista dos produtos que vão terminar – sempre de acordo com os hábitos de consumo da casa –  e faz a compra online ainda é só um protótipo. Mas já tem algo próximo disso:

A Amazon, sempre ela, fez uma parceria com a empresa alemã Brita para criar uma jarra de água com filtro embutido que além de filtrar também mede a quantidade de água que passa por ele. Quando aproximadamente 180 litros tiverem sido filtrados, a jarra vai se conectar ao wifi e enviar um pedido de novos filtros para a Amazon. Chamada de Jarra Infinita, ela faz parte do projeto Dash Replenishment Service que permite a eletrodomésticos como lavadoras ou aparelhos como impressoras se conectarem diretamente na Amazon e fazerem o pedido de sabão ou tinta quando esses estejam terminando. Sem a interferência humana e garantindo o melhor preço da loja.

O primeiro produto desse projeto foi o Amazon Dash, um pequeno aparelho do tamanho de uma caixa de fósforos com um botão que ao ser pressionado faz o pedido de um produto pré-programado na quantidade definida e entregue na casa do cliente sem nem mesmo ele ter que abrir o computador ou a carteira. Perfeito para produtos de consumo contínuo como fraldas, material de limpeza, café, etc., o Amazon Dash só está disponível nos EUA e para clientes Prime, claro. Com ele a Amazon além de derreter qualquer barreira entre on-line e off-line, pretende fazer a vida do cliente mais fácil e ganhar mais dinheiro com vendas recorrentes mesmo quebrando alguns dogmas do e-commerce como fazer o cliente entrar no seu site para ver outras ofertas. Veja aqui o vídeo explicando como o Dash funciona: https://youtu.be/EHMXXOB6qPA

                smart city – cidades inteligentes são aquelas onde a infraestrutura de serviços públicos é constantemente monitorada em tempo real permitindo que ações sejam tomadas a partir da análise de dados que fluem de diversas origens. Um vazamento na rede de água, descoberto pela diminuição da pressão na tubulação pode começar um processo que entre outras coisas altera o tempo dos sinais de transito permitindo um melhor controle do tráfego de veículos no local onde o reparo precisa ser feito.

O sistema público de transportes é um dos maiores clientes da IoT pois integrar dados de percursos, lotação e tempo de ônibus, taxis e metrôs pode melhorar muito a qualidade dos serviços de transporte. Claro que a escala de uma cidade com milhões de habitantes torna tudo muito mais complexo, por isso mesmo padrões públicos e abertos são necessários para que todos os interessados possam falar a mesma linguagem e trocar informações. Há diversos projetos pelo mundo de cidades inteligentes sendo desenvolvidos com objetivos diferentes e alinhados com as necessidades de cada lugar. E com a população mundial migrando em massa para os centros urbanos, a IoT vai ter papel preponderante em tornar não só melhor, mas sim viável a vida nas grandes cidades.

                smart environment – Agritech, a tecnologia aplicada ao desenvolvimento agrícola, é uma das áreas mais promissoras do mercado graças aos avanços da IoT. Desde sensores de umidade e temperatura que ligam a irrigação somente quando necessário ao monitoramento de rebanhos por GPS que também dirige as grandes máquinas colheitadeiras e plantadeiras nas extensas plantações, o IoT torna o agronegócio mais eficiente e produtivo. Uma das aplicações mais bacanas nessa área é brasileira e ganhou um prêmio internacional.

Criada na fazendo do pai em Itajubá, MG, Mariana Vasconcellos criou o Agrosmart, um sistema que promete tornar as plantações mais inteligentes. Utilizando sensores espalhados pela plantação que monitoram diversos parâmetros desde a umidade até a presença de pragas, o sistema analisa os dados colhidos e indica onde deve ser feita a irrigação ou tratamento do solo, como e por quanto tempo isso deve acontecer. A tecnologia pode proporcionar uma economia de até 60% no consumo de água e energia além de melhorar a qualidade da produção.

Num país onde 70% da água é consumida na agricultura, fica fácil ver o grande impacto que o sistema pode ter. A solução é tão boa que Mariana ganhou uma bolsa para estudar na Singularity University, uma das mais prestigiadas instituições de ensino americanas com foco intenso em inovação.

                smart people – pessoas conectadas para além do smartphone ou do computador é o suprassumo da IoT. Imagine engolir um robô na forma de um comprimido que irá mostrar ao seu médico que mora na Austrália em tempo real e em super HD como está funcionando seu intestino ou outro que vai aderir ao estômago e liberar enzimas sintéticas para auxiliar a digestão ou na cicatrização de uma úlcera de acordo com dados colhidos e monitorados remotamente, sem você ter que entrar em um hospital. Aplicações que amplificam a capacidade do cérebro conectando-o a supercomputadores e implantes que podem traduzir uma conversa e fazer com que seu portador escute na língua que quiser, não estão muito distantes.  Esse tipo de tecnologia vai não só nos fazer melhores, mas também vão nos fazer mais saudáveis e longevos. Uma verdadeira revolução tecnológica acontecendo dentro do nosso organismo.

Com todos esses exemplos de aplicação da IoT e essa enorme quantidade de objetos conectados prevista, duas consequências parecem óbvias. A primeira física: a quantidade de espaço para armazenamento de dados na nuvem precisa ser praticamente infinita. Com zilhões de bits sendo criados e trafegados por segundo, a grande rede vai precisar de um constante monitoramento para permitir que tudo isso aconteça sem grandes percalços. Bilhões de dispositivos únicos alimentando um incomensurável banco de dados global não é uma coisa simples de ser realizada.

A segunda é mais filosófica: como fica a privacidade da informação criada pelo permanente cruzamento de dados dos dispositivos usados por pessoas e empresas? Em algum lugar na nuvem haverá uma enorme quantidade de dados sobre hábitos que se por um lado permite a oferta e o uso de produtos e serviços mais adequados ao perfil de cada um, também irá permitir que produtos e serviços sejam proibidos para alguns com base nas mesmas informações. É uma transparência que pode ser exagerada e que poderá estar fora do controle de quem é ao mesmo tempo usuário e produto.

E isso já e uma realidade nas redes sociais, browsers, GPSs e aplicativos que exigem que seus usuários permitam a colheita de dados sobre seus perfis de uso. Esses dados, de forma anônima ou não, são usados de diversas maneiras, tanto para oferecer experiência personalizadas no uso do próprio produto como para oferecer propaganda de acordo com o perfil do usuário.

Mas veja só como a coisa pode ficar bem mais complicada: hoje alguns aplicativos monitoram nossos deslocamentos para oferecer informações sobre o trânsito, por exemplo. Com os dados colhidos é possível estimar se estou dirigindo e a velocidade com que me desloco. Imagine que na hora de renovar o seguro do carro a seguradora tenha acesso a essa informação e aumente o preço por que considera que eu dirijo muito rápido. Está certo isso? O aplicativo de trânsito pode compartilhar minhas informações com a seguradora? A seguradora pode exigir que eu compartilhe essas informações com ela para me aceitar como cliente ou não? São questões que até então nunca foram levantadas, mas que cada vez mais se tornarão comuns. Não preciso nem dizer que algo parecido pode acontecer entre os dados gerados pelos onipresentes activity trackers e empresas de seguro de saúde, não é?

Ao contrário do que tenho repetido aqui, na Internet das Coisas não é exatamente o homem que está no centro embora tudo que acontece nela sem seu conhecimento ou interferência ativa e consciente acontece para fazer sua vida melhor e mais simples. É toda uma nova forma de encarar a tecnologia como uma aliada invisível que age apenas quando necessário. E, como quase tudo de novo que a nova economia traz, vem acompanhado de uma série de questionamentos que nunca existiram simplesmente porque a IoT tampouco existia com a complexidade, abrangência e alcance que tem hoje. Se a IoT será mesmo uma rede das redes, onipresente, transparente e ao mesmo tempo discreta quanto a informações pessoais ainda é uma coisa a ser entendida, mas que seus impactos serão enormes por mais invisíveis que sejam, disso não há dúvida.

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