Negócios Sociais dão muito dinheiro e mudam o mundo

Uma coisa que quem acompanha essa série cansou de ler é que tem muita gente ganhando dinheiro tapando buracos e melhorando serviços que supostamente deveriam ser providos ou pelo menos incentivados pelo estado. De transporte a educação já citamos aqui vários exemplos desse tipo de iniciativa que estica a corda de leis arcaicas, monopólios históricos e barreiras institucionais e assim vêm mudando o comportamento, demandas e necessidades da sociedade.

Mas há um tipo de iniciativa que já foi considerada menos importante, mas que ultimamente ganhou um protagonismo não só pelos resultados práticos e financeiros que alcança, mas também pelos impactos sociais que causa. Impacto esse que está estreitamente ligado ao propósito do negócio.

Negócios Sociais foi o termo criado para designar um tipo de iniciativa que além de gerar lucros como qualquer outra empresa, também se propõe a gerar um impacto social importante, principalmente na população de baixa renda, em áreas como saúde, educação, finanças e empreendedorismo entre outras.

Antes que você pense que ‘negócios sociais’ é o novo nome que estão dando para as organizações não governamentais, as famosas ONG’s, aviso que a diferença entre os dois modelos é enorme. Embora possam muitas vezes terem objetivos finais parecidos, enquanto ONGs estão muito mais para o lado da caridade, dependendo de verbas governamentais e ou de doações, os negócios sociais são empresas que criam e vendem produtos e serviços para um consumidor final que paga por eles. Não dependem do governo, recolhem impostos, concorrem no livre mercado e não têm nenhum tipo de subvenção como acontece com as ONGs.

É o impacto social intencional, diretamente ligado à sua atividade principal e principalmente na população de baixa renda, que diferencia os negócios sociais de outros negócios.

Uma das iniciativas mais interessantes e inovadoras vem da área financeira.

Bonds, Social Bonds

Socail BondsDesnecessário dizer que qualquer investidor quando coloca seu dinheiro em um projeto ou empresa está buscando uma forma de remuneração do seu capital, em geral de médio ou longo prazo. Essa remuneração pode ser conseguida pela valorização da empresa no mercado, pelo sucesso financeiro do projeto ou, como tem acontecido com alguns projetos especiais, pela remuneração do capital calculada de acordo com o tamanho do impacto social causado pelo empreendimento. E o mais impressionante, a remuneração é paga pelo governo. São as Social Bonds, ou Títulos de Impacto Social, produto financeiro criado na Inglaterra em 2010 que tem viabilizado projetos social e ambientalmente relevantes pelo mundo. Funciona com o governo emitindo um título de dívida que só será honrado se a iniciativa a qual o título está atrelado alcançar o resultado social pré-acordado. O retorno pago pelo governo aos investidores nesse tipo de título vem da economia futura gerada pelo sucesso do projeto agora. Quanto mais o governo investe em prevenção hoje – melhor ainda se financiado por capital privado – menos irá gastar em solução no futuro, e isso permite dividir com os investidores os “lucros” do projeto.


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Em 2012 o programa Adolescent Behavioral Learning Experience recebeu US$ 10.000.000 na forma de Social Bonds do Goldman Sachs em parceria com a cidade de Nova York e a Bloomberg Philanthropies, para tentar reduzir os níveis de re-encarceramento na prisão da ilha de Riker. Os investidores liderados pelo banco só receberiam seu investimento de volta se a taxa de re-encarceramento, medida pelo total de dias de prisão evitados, fosse reduzido em 10% ou mais. Acima disso a Goldman Sachs recebe um retorno sobre o investimento proporcional ao que a cidade economiza com os resultados da ação financiada pelo banco.

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Infelizmente o programa não reduziu as taxas de re-encarceramento e os investidores perderam o dinheiro. Isso mostra que inovações tão ambiciosas como essa ainda merecem estudos e controles muito mais profundos para que ajustes sejam feitos e levados à novas iniciativas semelhantes. Mas esse [s só mais um exemplo de como a participação direta de empresas e pessoas nas políticas e investimentos públicos tem tido um enorme crescimento não só pelo uso da tecnologia que torna tudo muito mais transparente e mensurável, mas também pela criatividade do mercado atendendo demandas de investidores que buscam novas formas de negócios que causem impacto social e ao mesmo tempo justifiquem com lucro o investimento feito.

Mas enquanto as social bonds não emplacam por aqui, o empreendedorismo social brasileiro tem viabilizado iniciativas importantes.

Saúde onde nem o estado nem os planos alcançam

A nova economia é implacável, você já sabe. Já sabe também que quando o estado falha nas suas obrigações, sempre vai surgir alguém que vai cobrir esse buraco, fazer seu papel e ganhar dinheiro com isso. Na área da saúde a Dr. Consulta quer ocupar o limbo entre os planos de saúde e o SUS (Sistema Único de Saúde). Ela é um conjunto de clínicas particulares voltadas para as classes C e D oferecendo consultas e exames com baixo custo, agilidade, qualidade e foco em pacientes sem plano de saúde, que optam por não recorrer ao SUS e que não têm condições de pagar clínicas particulares tradicionais.

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Não há nada de errado em ganhar dinheiro e causar impacto social, muito pelo contrário. A Dr. Consulta fechou 2014 com sete unidades, atendendo 20.000 pessoas por mês e faturando R$ 6.000.000 no ano (com o lucro inteiramente reinvestidos na empresa), o que permitiu atingir o breakeven em 2,5 anos. Segundo Thomaz Srougi, médico, fundador e CEO da empresa, existem cerca de 800 milhões de consultas anuais não realizadas pelo SUS por ineficiência na gestão e monitoramento de pacientes. Uma parte dessas consultas está sendo atendida por empresas como a Dr. Consulta. Cobrando em média R$50 por consulta e oferecendo exames complementares básicos além da dignidade que o paciente não encontra no atendimento médico público, a iniciativa tem na sua atividade principal um impacto social que pode vir a mudar completamente a estrutura do atendimento médico público e privados brasileiro. Claro que além de social, é também um negócio disruptivo.

Branding com impacto social

Quando você pensa que o mundo se aproxima de uma população de 10 bilhões de pessoas e todos os problemas que isso pode gerar, é também inevitável pensar nas oportunidades que podem surgir em negócios sociais para atender os 2/3 pobres desses 10 bi. Visando associar sua marca a projetos de impacto social, a Chivas Regal, whisky da Pernod Ricard, criou o programa The Venture | Save the World and Get Rich Trying que anualmente investe um milhão de dólares e oferece apoio empresarial a start-ups que usam seus negócios para criar mudanças positivas e transformadoras para o mundo. Sua última edição teve 1.000 empresas inscritas e cinco delas, de cinco países diferentes, dividiram o prêmio e a mentoria profissional oferecidos. Negócio social é impacto, investimento, lucro e é branding também.

Dinheiro barato tem sempre impacto social

Como além de dinheiro, o que move o mundo de hoje também é informação, há empresas se propondo a usar essa abundância de dados – big data é o termo correto – para viabilizar empréstimo de dinheiro a pessoas e negócios com juros muito mais baixos do que os do mercado e mesmo assim ter lucro. E ao contrário de iniciativas como a Dr. Consulta, essas empresas não miram apenas as classes C e D, miram também que tem dívidas com cartões de crédito, quer investir na sua loja ou apenas reformar a casa.

Quem já tentou fazer um empréstimo bancário sabe a dificuldade que é. Depois de passar por uma seleção onde até seus antepassados falecidos são investigados e deixar seu patrimônio como garantia, a taxa de juros cobrada pelos bancos é no mínimo imoral, quase uma extorsão. Esse é o negócio dos bancos que tentam reduzir seus riscos tratando todos como caloteiros. Tem sido um ótimo negócio, e como todo bom negócio tem sempre alguém de olho e querendo participar. Mas na Nova Economia “participar” em geral quer dizer fazer tudo diferente, melhor, mais barato e mais acessível.

Zopa é uma financeira inglesa de empréstimos P2P que conecta quem tem dinheiro para emprestar com quem precisa de dinheiro emprestado. Sua plataforma permite que uma pessoa empreste dinheiro a outra cobrando juros muito menores do que os bancos e remunerando melhor do que os bancos o capital de quem empresta. Ganham os dois lados. Para emprestadores a Zopa dilui o risco entre vários tomadores de quem cobra juros diferentes de acordo com o perfil de cada um. Mas claro que sempre há um risco, e ele é coberto por um fundo de emergência criado pela empresa para pagar os créditos não honrados. O exemplo abaixo mostra a diferença entre pagar uma dívida de cartão de crédito usando um empréstimo da Zopa ou pagando os juros da operadora. Para nós brasileiros vale alertar que os valores dos juros apresentados são anuais.

Zopa

Em dez anos de funcionamento a Zopa já emprestou US$ 1.5Bi para 110.000 pessoas no Reino Unido e pagou US$ 90 milhões em juros a quem empresta. Nunca precisou usar o fundo de emergência pois criou um sistema de avaliação dos tomadores – big data – que garante uma das menores taxas de default no Reino Unido.

Empresas como a Zopa têm em comum a missão de virar ao avesso o sistema arcaico de empréstimos bancários atualmente vigente, tornando mais acessível, fácil, rápido e barato o crédito pessoal e empresarial enquanto ao mesmo tempo oferecem melhores taxas de retorno, mais transparência aos investidores e colocam mais dinheiro em circulação. A Zopa não é exatamente um negócio social ao pé da letra, mas o impacto social que ela causa colocando em circulação mais dinheiro mais barato não é menor por causa disso isso.

Consumo de impacto

Na Dr. Consulta o impacto social é direto, no indivíduo. Na Zopa é indireto, na sociedade. Mas tem gente querendo causar impacto das duas maneiras com um tiro só.

A Enrou é um e-commerce americano que faz a curadoria de produtos artesanais, raros e bacanas produzidos em comunidades carentes de países em desenvolvimento de todo o mundo e os coloca à venda em seu site.

Sempre vinculados a causas sociais importantes em cada localidade, os produtos oferecidos no site vêm acompanhados pela história da pessoa que o fez criando uma conexão entre o comprador e o fabricante.

Localmente a empresa capacita indivíduos e grupos através de educação em saúde, treinamento financeiro e mentoria de negócios para criação de postos de trabalho e incremento de renda.

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Fundada em 2014 por duas colegas de faculdade, a Enrou oferece no seu site produtos de 31 artesãos em 14 países, cobra uma pequena porcentagem por transação e já ganhou alguns prêmios e investimentos que permitem planejar um futuro de crescimento.

O projeto da empresa viabiliza um canal que era impossível há alguns anos e hoje é plenamente aproveitado por quem estava não só à margem da economia e nem tinha ideia de que uma nova economia está sendo criada.

Aceleração do impacto

Analisando os exemplos anteriores fica claro que montar um negócio que vai contra o mercado estabelecido, seja na forma de preços, transparência ou margem, é mais complicado do que montar um negócio normal. Por isso muitas vezes é necessária uma ajuda profissional para converter projetos em realidade. É isso que propõe a Artemisia, uma aceleradora de negócios “que ofereçam, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais da população de baixa renda no Brasil. ”

Com foco estrito nesse tipo de iniciativa, a Artemisia atua em várias frentes para que desde o empreendedor individual, investidores que buscam start-ups de impacto social e empresas que desejam alinhar-se com a filosofia sejam capazes de atingir seus objetivos de forma mais eficaz e rápida. Em quatro anos a empresa já articulou investimentos de cerca de R$ 44.000.000 em 79 negócios acelerados e ofereceu mais de 1.700 horas de mentoria empresarial. Uma bela ajuda para quem tem uma bela ideia.

Saúde, dinheiro, investimentos, aceleração e branding são só algumas áreas que vêm aproveitando as oportunidades que os negócios sociais têm aberto, mas iniciativas estão acontecendo no mundo todo e em áreas tão diferentes como logística de alimentos e educação.

Esse movimento sem nenhuma dúvida mostra como a nova economia não é apenas para quem tem acesso à tecnologia nem para apenas resolver um problema pontual. Os negócios sociais são talvez a sua vertente de maior impacto de transformação, atingindo a base da pirâmide social e refletindo esse impacto em toda a cadeia de relações que compõe a sociedade.

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Este é o oitavo artigo da série sobre a Nova Economia e seus impactos na sociedade. Leia abaixo os artigos anteriores.

1 | Introdução

2 | O Novo Consumo

3 | O Novo Trabalho

4 | Com quem está o Poder na Nova Economia?

5 | Saco de pão, Google e Netflix. Como vai a mídia na Nova Economia?

6 | Três negócios disruptivos que resumem as transformações que estamos passando

7 | O que você tem que conhecer sobre educação na Nova Economia

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Se você quiser levar a discussão sobre a Nova Economia e seus impactos na sociedade e nos negócios para um grupo, escola ou empresa, entre em contato: contato@setze.com.br.

2 comentários sobre “Negócios Sociais dão muito dinheiro e mudam o mundo

  1. Parabéns pelo artigo com bastante consistência. Me ajudou a conhecer novas empresas e mercados.
    Quero muito abrir uma start up de negócio social voltado para produtos de engenharia que ajudem as pessoas mais carentes.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: A Nova Economia e a Nova Sociedade – o resumo | Panora

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