O que você tem que saber sobre educação e conhecimento na nova economia

As possibilidades que as novas tecnologias abrem na área de educação são tão enormes que não é fácil acompanhá-las todas. Exatamente como em outras áreas, na educação também estamos vendo o velho convivendo com o novo muitas vezes no mesmo ambiente, na mesma casa, na mesma sala de aula. Poucas áreas precisam tanto da disrupção que a nova economia traz do que a educação.

Não vou entrar no mérito de como educação e conhecimento são importantes para o desenvolvimento de qualquer um, indivíduo, negócio ou país. Quem discorda disso pode pular para o próximo artigo. O que vamos discutir aqui é como as possibilidades de compartilhar informação e conhecimento se multiplicaram e vêm se adaptando às tecnologias que, se ainda não são onipresentes e não serão nunca a solução, têm um papel cada vez mais relevante, abrangente e modificador.

Nosso conhecimento, minha vida

Claro que a internet se tornou a primeira grande aliada da educação. Poder acessar qualquer tipo de conteúdo de qualquer lugar viabilizou uma série de iniciativas que ampliaram enormemente o alcance e a abrangência de cursos que até então eram restritos à quantidade de pessoas que cabem numa sala de aula ou auditório. Não só na ponta do consumidor, mas, como vimos no artigo sobre mídia, também na ponta do produtor tudo mudou. Tem mais gente nova produzindo e distribuindo conhecimento, dividindo experiências, explicando teorias e conceitos do que jamais houve.

Plataformas de cursos online são dos mais conhecidos novos meios de transmissão tanto do conteúdo que já era produzido para aulas presenciais como para a abertura de novos cursos que só fazem sentido se tiverem uma grande audiência, são os MOOCs ou Massive Open Online Courses – Curso Online Aberto e Massivo. Praticamente todas as grandes universidades do mundo hoje oferecem cursos desse tipo pela internet. Desde os de curta duração até os que oferecem diplomas oficiais. Os números de 2013 da Coursera, a maior plataforma de cursos online do mundo fala por si só. Vejam o Brasil como quarto maior país em numero de alunos cadastrados. E ainda tem gente pedindo o fim das disciplinas online.

tumblr_inline_mv5aeuxeja1rg0l34

No Brasil, plataformas como a do Descomplica têm uma proposta diferente, com impacto mais prático, objetivo e imediato: ajudar quem vai fazer o ENEM a tirar melhores notas. Atuando como um complemento ao ensino formal, o Descomplica se tornou referência para estudantes que vão prestar vestibular e fazer provas do ENEM. Possui uma biblioteca de 15.000 vídeos sobre doze disciplinas e transmite oitos horas de aulas ao vivo por semana para 8 milhões de estudantes por mês. Uma aula de física do Descomplica já teve 250.000 alunos simultâneos assistindo. Esses estudantes pagam entre R$ 20 e R$ 30 mensais e vêm obtendo resultados 78% superiores à média nacional nos testes e provas dos quais participam. Além de ser uma iniciativa bacana em termos de empreendedorismo, educação e de oportunidade de acesso ao ensino superior, o Descomplica mostra que é possível atingir bons resultados acadêmicos em larga escala, criar um evidente benefício social com pouco ou nenhum apoio do governo e ainda por cima ganhar dinheiro com isso. O negócio é tão bom que investidores estrangeiros colocaram USD 13,5 milhões na empresa em 2015. Só sendo muito míope ou ter interesses próprios para negar que a educação online é uma das soluções óbvias para a democratização do acesso ao conhecimento.

Outro sucesso bem diferente, mas igualmente impactante, é a distribuição das palestras do TED pela internet. Criado por Chris Anderson, ex-editor da revista Wired e quem popularizou o termo “Cauda Longa”, duas referências da nova economia, os eventos do TED reúnem pessoas que têm alguma experiência relevante para compartilhar. Através do seu site qualquer um pode assistir palestras que no máximo virariam livros em outros tempos. Com cerca de 350 temas tão diversos como mágica e microbiologia, passando por negócios, meditação, educação e design, o TED se tornou uma referência e criou celebridades globais como Hans Rosling e sua forma peculiar de apresentar estatísticas. Gente que você provavelmente nunca ouviu falar até figuras como Bill Gates, Vik Muniz, Michelle Obama, Jaime Lerner e Richard Branson já participaram. Quando poderíamos imaginar que qualquer um poderia ter acesso a tanto conhecimento, de gente tão relevante, de graça, a apenas um clique de distância?  Como se não bastasse, a palestra mais assistida na história do TED é sobre educação. Assista aqui com legendas em 56 idiomas diferentes.

sir-ken-robinson-at-ted-talks-education2

Olhando para todas essas mudanças que vêm acontecendo na sociedade e mais especificamente no trabalho, é inevitável pensar em como preparar os jovens estudantes para um ambiente profissional que será muito diferente do atual. Como analisei no artigo sobre o novo trabalho, muitas profissões populares deixarão de existir, outras irão precisar de habilidades e conhecimentos diferentes dos que são ensinados hoje, mas uma coisa é comum a todos os níveis de ensino e atividades: a necessidade de um aprendizado holístico, entendendo como todas as matérias se inter-relacionam, como cada uma faz sua parte e qual seu impacto no todo.

Longe da solução puramente tecnológica, escolas na Finlândia, meca e exemplo de educação eficiente, já preparam seus alunos para essa nova realidade. Mesmo tendo um dos melhores resultados do mundo em testes internacionais como o PISA – outra coisa que em breve terá que ser revista – o país não se acomoda e entende que é necessário evoluir sempre. Já com as questões básicas da educação resolvidas, decidiu parar de encaixotar as matérias de forma estanque e independente, agora passará a apresentá-las de forma integrada, como fenômenos interligados. Nada mais de uma hora de geografia seguida de outra de matemática. O objetivo agora é acabar com a sensação de inutilidade de algumas matérias explicando o papel de cada uma no todo. Dessa forma os educadores finlandeses – que também deverão se reciclar para o novo formato – entendem que irão entregar à sociedade jovens com visões abrangentes que quando se decidam por uma especialização saibam como relacioná-la com aspectos econômicos, políticos e sociais do dia a dia.

Se por um lado devemos preparar os jovens para um futuro profissional diferente, há também a necessidade de atualizar a atual geração de profissionais de forma a atender uma sociedade que vem evoluindo mais rápido do que nunca. Essa é a proposta de duas iniciativas nacionais que utilizam fortemente a tecnologia para fornecer cursos rápidos que não visam tornar ninguém especialista em nada, mas podem fazer a diferença na carreira e abrir oportunidades profissionais e pessoais de alguns.

A EduK, empresa brasileira de educação à distância fundada em 2013, oferece cerca de 600 cursos em vídeo pela internet, tem cerca de 50 mil assinantes e recentemente recebeu USD 10 milhões de aporte de um dos principais fundos investimento americanos para expandir além das fronteiras do Brasil e do México onde já atua. Oferecendo cursos rápidos de até 12 horas com aplicação prática e bem específicos em áreas tão distintas como odontologia e decoração, a EduK dá oportunidade tanto a quem quer aprender como a novos professores contratados entre expoentes de cada assunto. Cobrando entre R$ 20 e R$ 30 por mês com a primeira semana grátis, em 2015 a previsão era de um faturamento de R$ 39 milhões. Um case já famoso é o do aluno que fez um curso de panetones e hoje é dono de uma casa de massas em Campos dos Goytacazes, RJ. Tecnologia abrindo horizontes e novas oportunidades profissionais é um dos maiores impactos da nova economia na sociedade.

Outra nova empresa brasileira de educação na linha de cursos curtos e específicos, mas dessa vez usando o celular como plataforma principal, é a Edumobi. Oferecendo cursos em parceria com terceiros como revistas e sites especializados, o serviço oferece cerca de quarenta cursos com assuntos e durações variadas que o aluno pode fazer livremente pelo celular pagando uma assinatura semanal de R$ 2,99. No seu banco de dados há mais de três mil desafios por SMS e duas mil audioaulas gravados. Em quase três anos de existência, a Edumobi acumula 2,5 milhões de estudantes, que completaram 7 milhões de lições. Aqueles que conseguem completar um curso recebem em casa um certificado impresso. Em 2015 a Edumobi foi premiada como a melhor inovação móvel para educação e aprendizado no Mobile World Congress e agora também planeja sua expansão internacional mostrando que boas soluções aliando educação e mobilidade não têm fronteiras.

Como as necessidades e demandas são muitas, ideias e iniciativas privadas não faltam por aqui.   É o caso do Plurall que oferece a colégios um serviço de monitoria on line para que seus alunos tirem dúvidas com os próprios professores pelo site da escola ou pelo app no smartphone. Focado em estudantes do ensino médio, o ganho de escala proporcionado pela ferramenta é evidente e os atuais 25.000 alunos cadastrados enviaram apenas no primeiro ano cerca de 40.000 dúvidas que foram indexadas em um banco de dados e podem assim ser acessadas a qualquer momento. As dúvidas mais comuns ganham vídeos explicativos produzidos pelos professores da própria escola. Premiado em 2014 como como melhor case de educação do Tela Viva Móvel, em 2016 o Plurall tem como meta atingir 80.000 alunos e oferecer o seu serviço também no ensino público. Mais um exemplo de como a tecnologia pode proporcionar um alcance e uma escala até então impensável na educação brasileira.

Como você já percebeu nessa série de artigos, o indivíduo, seja criando ou usufruindo dessas criações, é o centro da nova economia. O protagonista. Mas quase tudo que está acontecendo tem o suporte intenso de tecnologia, tem um pé no digital. Da agricultura à medicina, a tecnologia tem papel fundamental aumentando a produção de alimentos ou ajudando a fazer diagnósticos mais precisos. Mas temos gente suficiente para cobrir as necessidades crescentes por profissionais na área tecnológica?

Programação é o novo futebol, ou deveria ser

Vamos combinar que é difícil explicar para um jovem que ele tem mais chances de vencer na vida sendo programador do que sendo jogador de futebol, não é?  Quantos programadores têm uma vida e principalmente uma mídia parecidas com as do CR7 e do Neymar? Mas nós sabemos que a realidade não é bem assim e por isso devemos mostrar-lhes que 82% dos jogadores de futebol no Brasil ganham até dois salários mínimos[i] e que apenas 2% ganham acima de 20 salários. Ao mesmo tempo faltam profissionais de TI que podem começar uma carreira ganhando R$ 2.000 com perspectivas salariais e profissionais muito melhores e mais longas do que a média de um jogador de futebol.

Mas vamos supor que o garoto é um gênio tanto jogando bola como nos estudos. Mesmo assim o argumento não se sustenta já que há muitos mais milionários fora do esporte do que dentro dele. Quer dizer, num processo lógico, escolher jogar futebol para ganhar dinheiro ao invés de programação só faz sentido num país onde há poucas oportunidades profissionais e muitas escolinhas de futebol. No caso da falta de programadores a escassez não é só no Brasil, onde em 2014 havia 200.000 vagas abertas nessa área, mas também em países como EUA, França e Inglaterra onde a falta desse tipo de skill é evidente há mais tempo. A Índia percebeu isso antes de todo mundo e hoje é dos maiores fornecedores de mão de obra tecnológica do mundo.

Como sempre acontece onde o governo falha na provisão de serviços básicos e na preparação do país para o futuro, surgem oportunidades que são abraçadas por empresas que além de ganharem dinheiro, têm papel importante ajudar a resolver um problema que parece só crescer.

No Brasil há vários exemplos de iniciativas que se aproveitam dessa necessidade do mercado para criar oportunidades para jovens fora das escolinhas de futebol. O Code Club Brasil e a Code Academy por exemplo oferecem aulas online gratuitas visando apresentar e ensinar programação a jovens interessados em tecnologia. A segunda é bancada por duas grandes empresas de tecnologia que precisavam diminuir o tempo médio de seis meses para encontrar e contratar profissionais qualificados e assim expandir seus negócios.

Mas uma das iniciativas mais bacanas vem da França onde o bilionário Xavier Niel, dono do jornal Le Monde e de outros negócios na área de tecnologia e celulares, tirou €50 milhões do bolso para fundar a 42, uma escola privada e gratuita que ensina jovens a programar.

Sem pedir dos alunos nenhum tipo de formação prévia, mas também sem oferecer nenhum título formal após a graduação, a 42, que tampouco é certificada pelo governo Francês, tem um processo seletivo duro e muito concorrido e pretende colocar no mercado 1.000 excelentes novos programadores por ano em um curso de três anos. A primeira turma se forma em 2016.

Novos modelos educacionais como a 42 sofrem tanto ou mais que novos modelos comerciais como Uber e AirBnB quando o assunto é regulamentação, quebra de paradigmas e monopólios. Se os governos ainda não sabem como tratar esse tipo de iniciativas, o que se espera é que pelo menos não atrapalhem o surgimento e o desenvolvimento delas, frutos da miopia ou incapacidade dele em atender demandas presentes e latentes do mercado e da sociedade.

Todas essas iniciativas não são apenas para criar mão de obra numa área específica e com demanda crescente, mas entende-se que aprender a lógica de programação ajuda a pensar de forma mais estruturada e assim resolver problemas e construir hipóteses em qualquer área. Conhecimento tão fundamental na pequena área como na nova economia.

Não é só a tecnologia que vai resolver os problemas da educação

O sistema de ensino praticado hoje na maioria das nossas escolas vem das linhas de produção desenvolvidas após a revolução industrial. A estrutura hierárquica, o fluxo unidirecional de conteúdo do professor para o aluno e a necessidade de memorização que ainda dominam os estudos, não serve mais para a nova sociedade.

E a mesma tecnologia que está criando a nova economia pode ajudar muito a mudar o cenário, mas sem o rompimento completo com esse sistema educacional arcaico, não há como evoluir rapidamente. Acesso em massa a conteúdo e informação é um dos benefícios que a tecnologia pode trazer para a educação, mas isso está longe de resolver os problemas do nosso ensino, principalmente o médio. Não é dando um tablet para cada aluno nem replicando em vídeos na internet as aulas dadas em sala, que iremos dar o salto necessário e atingir o patamar de qualidade que os exames internacionais pedem, nem disseminar o tipo de conhecimento, pensamento e cultura que a nova sociedade precisa. Nada disso funciona sem um professor atualizado, dedicado e valorizado por alunos e pelo mercado. Lembrem-se que o indivíduo é o centro da nova sociedade.

Falar em mercado quando se fala dos professores também é quase uma heresia por aqui. Professores brasileiros são percebidos e tratados quase como voluntários desvalorizados quando na verdade são eles que formam o capital humano do país. Hoje os melhores professores provavelmente estão longe dos alunos, em atividades que pouco colaboram para a geração e transmissão de conhecimento e consequentemente riqueza. A lei do mercado, como sempre, é implacável, preparar e pagar melhor os professores garante encontrarmos dentro da sala de aula alguém motivado a obter os resultados que a nova sociedade demanda.

Definitivamente precisamos de um reboot na forma e no conteúdo usado para educar nossos jovens. Como os resultados dos exames e testes internacionais como o PISA indicam, somos dos últimos colocados na preparação dos estudantes do nível médio, mesmo tendo um sistema educacional público e privado com foco exatamente em que o aluno passe em testes, como o ENEM, e não com foco em uma educação agnóstica e holística como pede a nova sociedade.

Apesar de todos os avanços, a educação continua sendo o calcanhar de Aquiles para o presente e o futuro da nova sociedade. A tecnologia ajuda, mas na educação, mais do que em outras áreas, as pessoas precisam se envolver para que essa tecnologia atinja todo o seu potencial.

Este é o sétimo artigo da série sobre a Nova Economia e seus impactos na sociedade. Leia abaixo os artigos anteriores.

1 | A Nova Economia e a Nova Sociedade

2 | O Novo Consumo

3 | O Novo Trabalho

4 | Com quem está o Poder na Nova Economia?

5 | Saco de pão, Google e Netflix. Como vai a mídia na Nova Economia?

6 | Três negócios disruptivos que resumem as transformações que estamos passando

 Originalmente publicados no Panora.

[i] http://extra.globo.com/esporte/triste-realidade-no-brasil-82-dos-jogadores-de-futebol-recebem-ate-dois-salarios-minimos-6168754.html

2 comentários sobre “O que você tem que saber sobre educação e conhecimento na nova economia

  1. Pingback: A Nova Economia e a Nova Sociedade – o resumo | Panora

  2. Pingback: PanoraMix #18 | Paco Torras | PANORA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s