O Novo Trabalho

Este é o terceiro artigo da série sobre a Nova Economia que iniciamos aqui. Leia o segundo artigo, sobre o Novo Consumo aqui.

Photo credit DonkeyHotey Foter.com CC BY

O Novo Trabalho

Junto com as novas formas de consumo, as relações de trabalho sofrem muitas mudanças na nova economia. Com o consumidor agora tendo acesso direto ao fornecedor do serviço, com intermediários que incentivam essa relação ao The Economist Employmentinvés de tentar controlá-la, a quantidade de novos empreendedores por conta própria aumenta enquanto as contratações formais diminuem. Junto com o aumento real do salário mínimo e da automação de algumas atividades, uma nova classe de trabalhadores está surgindo, mais especializada, livre e com mais dinheiro no bolso. Recomendação e reputação são as novas cartas de referência no novo trabalho.

Essa não é a primeira onda de grandes mudanças nas relações de trabalho pela qual a sociedade passa. O Uber de hoje é a máquina a vapor da revolução industrial de duzentos anos atrás. A diferença é que hoje a revolução não está apenas em máquinas substituindo trabalhadores, isso também acontece, mas sim nelas – de alta tecnologia e movidas à eletricidade – ajudando mais trabalhadores a ganharem mais dinheiro. E às  vezes trabalhando menos.

Vamos separar o novo trabalho em duas realidades distintas: uma nascida à partir dos novos negócios que viabilizam e facilitam o acesso de trabalhadores, prestadores de serviços ou criadores de produtos diretamente aos clientes e assim criam novas oportunidades de trabalho e renda. A outra, nascida na indústria e atualmente muito forte em serviços, também tem um viés tecnológico além de um político-econômico que vêm inviabilizando uma série de atividades normalmente executadas por trabalhadores de carne e osso. E isso é bom.

Automação e Salário Mínimo

Um estudo da Gartner indica que por volta de 2025 até 30% da força de trabalho poderá ser substituída por robôs. Não fala apenas de fábricas onde a robotização é uma obrigação para se manter competitivo. Prevê que a necessidade de baixar custos, aumentar produção e manter margens em todas as áreas irá passar inevitavelmente pela substituição de mão de obra humana pela cibernética, principalmente em atividades repetitivas, insalubres ou que exijam muita precisão ou força e também onde a mão de obra humana acabe sendo mais cara ou rara do que um robô.

Como se não bastassem as vantagens técnicas da automação – robôs são mais rápidos, precisos, trabalham 24/7 e não acessam redes sociais no horário de trabalho – os recentes aumentos reais no valor do salário mínimo aliado aos custos trabalhistas tornam o trabalhador tão caro que incentivam que alguns tipos de atividades, comuns em fábricas, depósitos, bibliotecas e fast-foods, por exemplo, sejam melhor executadas por robôs, empurrando para fora do mercado os trabalhadores que sempre as ocuparam até então.

Os altos custos trabalhistas no Brasil, onde os salário mínimo ainda é baixo e a eficiência é ainda menor, farão esse movimento ser inevitável e acelerado pela baixa qualificação da mão de obra existente e pela queda nos custos da automação. Então não espere que aquele primeiro emprego no McDonalds seja comum por muito mais tempo.

Redução dos custos de automação e aumento do salário mínimo incentivam a substituição da mão de obra não só na indústria mas também em serviços onde especialização não é necessária. O trabalhador se torna mais caro e menos eficiente do que a máquina.

Há poucos exemplos melhores de automação do que esse vídeo de um restaurante japonês que serve 20.000 pratos por dia com apenas 15 pessoas na cozinha.

Mas ao contrário do que você pode estar imaginando, a tecnologia criou mais empregos do que destruiu nos últimos 140 anos. Um estudo feito pela Deloitte sobre a relação entre tecnologia e emprego com dados dos últimos 140 anos na Inglaterra e no País de Gales  mostra que a tecnologia foi uma “máquina de gerar empregos” e responsável pelo aumento da renda e consequentemente de despesas pessoais e familiares, criando assim novas demandas e novos empregos. Muitos mais do que destruiu.

power workers

Enquanto trabalhadores em atividades perigosas, repetitivas e sem necessidade de especialização foram substituídos por máquinas, como na agricultura, outras áreas mais criativas, de negócios, cuidados pessoais e tecnologia aumentaram muito a demanda por uma mão de obra que não pode, ainda, ser substituída por robôs. Outras áreas menos óbvias também tiveram crescimento na quantidade de trabalhadores. Barmen e cabeleireiros foram duas que acompanharam o aumento de renda dos trabalhadores no período.

O impacto da automação, não só com robôs mas também com softwares que realizam com mais  rapidez e eficiência tarefas como cálculos complexos e filtros em bancos de dados, além do impacto do aumento do salário mínimo é muito mais profunda do que podemos discutir aqui. Leia essa reportagem da The New Yorker e entenda o dilema de quem concorda que é necessário subir os salários mas que ao mesmo tempo sabe que isso vai fazê-lo fechar seu negócio.

Os Novos Negócios

Enquanto a automação em muitos casos substitui trabalhadores por máquinas ou softwares, novos modelos de negócios viabilizados pela tecnologia geram novas oportunidades profissionais e, se não resolvem um problema, pelo menos melhoram processos, economizam tempo e movimentam a economia. Mas isso vêm com um preço: a quebra de paradigmas e monopólios há muito tempo estabelecidos e a consequente insatisfação de quem os possuía. Essas novas oportunidades não são exatamente empregos formais, com um empregador, carteira assinada, encargos trabalhistas e sindicatos. E é só por isso que elas existem.

O Uber – famoso serviço de carros com motoristas particulares solicitados apenas quando necessário através de um aplicativo de celular – é o mais evidente exemplo dessa situação na qual simplesmente não há leis para regulamentar o seu funcionamento nem as novas relações de trabalho que esses novos negócios vêm criando. Tanto que seu modelo vem servido de exemplo para diversos outros negócios em diferentes áreas, num movimento que ganhou o nome de Uberização. Enquanto no Brasil se discute a manutenção das relações de trabalho por meio de leis, o mercado pode estar indo na direção contrária, liderado por um modelo de negócios, remuneração e responsabilidades mais flexível e com vínculos mais diretos.

Vínculos mais diretos e quebra de monopólios levam imediatamente à disrupção de um sistema que mantém por inércia, interesses e política o trabalhador amarrado a sindicatos e o empregador a contribuições obrigatórias que nunca são devolvidas em forma de serviços ou benefícios. Na nova economia o trabalho é mais livre, com menos taxas, impostos e contribuições obrigatórias o que leva ao trabalhador ter mais dinheiro no bolso para consumir ou investir.

A uberização da economia e do trabalho tem diversos benefícios para toda a cadeia que é controlada não por regulamentações estatais mas sim por recomendações de usuários e fornecedores dos serviços. Serviços esses que vão deste o transporte individual até serviços de advogados e de medicina. Como já vimos no artigo sobre o novo consumo, o cliente só paga pelo serviço quando o utiliza e o prestador pode ter a flexibilidade de trabalhar no horário que lhe for mais conveniente, seja como atividade principal, seja para complementar a renda.

Um dos aspectos mais polêmicos e interessantes desses novos negócios é que não há vínculo empregatício deles com os prestadores de serviços, funcionam como hubs, como intermediários entre oferta e demanda. Relações desse tipo são tão antigas quanto a humanidade, mas agora, com a ubiquidade dos smartphones, tornou-se mais acessível a consumidores e fornecedores. Empresas como a Uber são totalmente formalizadas e, ao contrário do que pregam seus inimigos, que não são poucos, devem pagar seus impostos como outra empresa qualquer.

Driver Services in SFPara os governantes preocupados com a uberização de economia e a suposta redução na arrecadação de impostos, vejam ao lado que em São Francisco negócios como o Uber colocaram diretamente US$ 100M na economia da cidade e criaram um novo mercado sem praticamente nenhum impacto no monopólio dos táxis. Isso quer dizer mais gente trabalhando, mais renda, mais consumo, mais riqueza. Sem falar de empregos indiretos em áreas tão diferentes como tecnologia e manutenção de veículos. Ninguém perdeu.

É certo pensar que o Novo Trabalho não tem a segurança de um emprego formal, talvez não tenha a possibilidade de uma carreira de longo prazo e seja meio imprevisível, mas há profissões e atividades que sempre foram assim e existem há séculos. Por que esse modelo não pode ser adotado por quem quiser adotá-lo? É certo pensar também que o trabalho, como a sociedade, caminha sempre para um equilíbrio e que no meio desse processo a balança pode às vezes pender mais para um lado do que para o outro. É por esse ponto que estamos passando agora.

Muitos desses novos negócios ignoram leis e regulamentações estabelecidas que só puderam ser questionadas agora, através de novas tecnologias e isso incomoda muita gente. O que esses negócios fazem é realizar um serviço tão melhor do que os existentes, oferecendo benefícios e novas oportunidades de trabalho antes impossíveis de alcançar, que a própria população irá solicitar uma atualização das leis que regem a atividade.

Os novos negócios disruptivos viabilizados pelas novas tecnologias estão mudando a maneira como trabalhamos e as leis precisam acompanhar isso.

Automação de um lado e uberização de outro não são mais tendências, mas sim realidades em uma nova sociedade que valoriza o trabalho de outra forma, com menor presença do governo, mais eficiência, qualidade, transparência, flexibilidade e principalmente mais dinheiro no bolso de quem trabalha.

Como consequência disso tudo, vamos ver os governos mais preocupados do que nunca com tantas mudanças numa área altamente regulamentada. Quais suas perdas e ganhos na nova economia é o tema do próximo artigo.

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Se você quiser levar a discussão sobre a Nova Economia e seus impactos na sociedade e nos negócios para um grupo, escola ou empresa, entre em contato: contato@setze.com.br.

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 Imagens

  1. Labor Management – Photo credit DonkeyHotey Foter.com CC BY
  2. The Casual Look – The Economist
  3. Labour Switching – The Guardian
  4. Overtaking – The Economist

4 comentários sobre “O Novo Trabalho

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