A Nova Economia e o Novo Consumo

Este é o segundo artigo da série sobre a Nova Economia que iniciamos aqui.

Mudanças nas formas de consumo talvez tenham sido as mais importantes e percebíveis proporcionadas pela nova economia. O consumo permeia todas as outras áreas e não se restringe apenas às transações de compra ou venda – atividades que estão caindo em desuso rapidamente como veremos a seguir – mas acontece também na forma e nos meios usados para consumir serviços e produtos físicos ou digitais.

Sharing is the new buying

A expressão usada para identificar essas novas formas de consumo se confunde com a própria Nova Economia. A Economia do Compartilhamento ganhou esse nome porque muitos novos negócios da nova economia se baseiam na viabilização ou intermediação do compartilhamento de bens e serviços sejam eles carros, ferramentas ou até tempo. Sim, na nova economia tudo que é sub utilizado pode ser convertido em dinheiro, até o tempo.

sharingA tendência do compartilhamento de bens é tão forte que foi adotada não só por novas empresas que já nasceram na nova economia como o Uber, mas também por empresas que estão aí há mais de cem anos, como é o caso da Ford. De formas diferentes, ambas empresas investem no compartilhamento de veículos como uma das soluções para o transporte individual. O Uber faz a intermediação de motoristas e seus carros com passageiros que precisam ir de um ponto a outro de uma cidade. Já a Ford criou uma empresa só para oferecer carros elétricos de aluguel por minuto sem a necessidade de devolvê-lo no mesmo lugar onde o retirou. Nas grandes cidades europeias e americanas já existem vários serviços similares há algum tempo, mas montadoras apostando que podem ganhar dinheiro alugando carros ao invés de vendendo, mostra como esse negócio de compartilhamento é sério.

Transporte urbano individual tem sido uma das áreas mais férteis da nova economia. Iniciativas como as descritas acima e e outras como intermediação de caronas, bicicletas e até vagas de estacionamento têm mostrado que no futuro ter carro vai ser como ter um cavalo hoje em dia, quase um hobby.

Negócios de compartilhamento acontecem não só com bens. Um dos exemplos mais interessantes é o brasileiro Bliive que propõe a troca de tempo e habilidades entre pessoas. Você pode trocar uma hora de aula de inglês por outra hora de shiatsu com pessoas diferentes. O Bliive cria um banco de horas que seus usuários podem trocar entre si. Não há dinheiro envolvido. Já o Fiverr oferece um cadastro de profissionais para serviços free-lance diversos de forma global. O cliente pode contratar um designer ou um tradutor no outro lado do mundo. Este modelo onde há um marketplace de serviços também é conhecido como crowdsourcing e o que de mais próximo existe disso no mundo off-line são as páginas amarelas.

Para que tudo isso dê certo uma coisa se tornou fundamental: a avaliação e a recomendação não só de fornecedores mas também de usuários. Na nova economia os fornecedores também avaliam os clientes.

Para que tudo isso dê certo uma coisa se tornou fundamental: a avaliação e a recomendação não só de fornecedores mas também de usuários. Na nova economia os fornecedores também avaliam os clientes. No caso do AirBnB, onde usuários muitas vezes alugam cômodos nas casas onde vivem para desconhecidos, esse tipo de avaliação é fundamental. Há casos de hóspedes banidos do site por causa da má avaliação dos anfitriões. E vice-versa.

Streaming is the new downloading

Mas nem só de compartilhamento vive a nova economia. No seu cerne também existem outros modelos comerciais que têm dado certo embora ainda careçam de algum amadurecimento. São as assinaturas periódicas para consumo sem limites de música, ebooks, vídeo e informação nas quais por um preço fixo o cliente tem direito de ouvir/ler/ver uma quantidade praticamente ilimitada de conteúdos sem nunca possuí-los, sem nunca ser dono deles. A vantagem desse modelo é deixar o cliente livre para experimentar o que quiser na hora que quiser sem pagar mais por isso. Bibliotecas de música, livros e vídeo digitais hoje possuem milhões de títulos disponíveis por um preço fixo mensal. Spotify, Amazon e Netflix são os expoentes nesse modelo de negócio que só se tornou viável com a disseminação da banda larga, principalmente em dispositivos móveis como smartphones.


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O compartilhamento e o consumo ilimitado de conteúdo digital diferem basicamente na forma de pagamento, enquanto o primeiro o consumidor só paga quando precisa usar, conhecido como on-demand ou sob demanda, no segundo ele paga mesmo se não usar. Em comum os dois alteram hábitos que já pareciam cristalizados, de que era necessário comprar para ter, que era necessário ter para usar.

Esses dois modelos foram detalhadamente analisados em um outro artigo que publiquei aqui.

Resumindo

A Nova Economia hoje tem dois modelos comerciais principais, ambos benéficos para o consumidor: as assinaturas periódicas permitem aos heavy users consumir uma quantidade de conteúdo impensável até pouco tempo enquanto o modelo sob-demanda viabiliza o consumo apenas no momento em que o cliente deseja. Cada modelo se adapta melhor a um tipo de produto ou serviço mas ambos oferecem benefícios também na ponta do fornecedor ampliando enormemente o acesso a conteúdos digitais que antes só podiam ser comprados e hoje podem ser alugados por uma fração do seu preço e, no caso do compartilhamento, permitem rentabilizar um ativo que até então só era usado esporadicamente por aquele que investiu na sua aquisição.

Os resultados práticos disso, entre outros que veremos adiante, é que a vida fica mais barata e o consumidor com mais dinheiro no bolso seja para consumir ou para investir.

 Crowdfunding

A Nova Economia, embora totalmente centrada no consumidor, também criou soluções para que quem produz possa fazê-lo de forma mais barata, com mercado certo e sem depender de bancos ou de investidores. A velha vaquinha entre amigos, na sua versão digital globalizada, hoje é uma das principais ferramentas para o financiamento de novos produtos.

Photo credit Rocío Lara Foter.com CC BY SAFunciona assim: uma empresa tem uma ideia de um produto ou projeto, faz um protótipo funcional dele, um vídeo de apresentação, coloca em um dos diversos sites de financiamento coletivo definindo um preço especial para quem garantir a compra do produto antes mesmo dele ser produzido e um mínimo total de dinheiro necessário para viabilizar a quantidade definida. Gente do mundo todo toma conhecimento do produto e se estiver interessado garante a compra com o cartão de crédito. Caso o minimo total seja atingido, o idealizador pega a grana, produz os produtos e entrega aos compradores. O consumidor só paga se o total solicitado for atingido. O papel do site, que fica com uma porcentagem do dinheiro, é garantir a entrega do produto proposto no prazo acordado.

O Catarse, principal site brasileiro de crowdfunding, desde 2011 já intermediou R$ 36.000.000 para cerca de 2.000 projetos. Nos EUA o Kickstarter, pioneiro e gigante do financiamento coletivo, viabilizou em seis anos até meados de 2015 mais 95.000 projetos com financiamento de quase 10 milhões de indivíduos que deixaram lá mais de US$ 2 bilhões. Esse modelo é tão bom que até a Sony vem usando para testar a aceitação de novos produtos fora do ambiente engessado de uma grande empresa global. Nele todos ganham pois os empresários viabilizam um produto com mercado garantido, investimento mínimo, sem recorrer a bancos e seus juros. O consumidor tem acesso a um produto único, por um preço melhor do que quando estiver no mercado e com a garantia de entrega do site que fez a intermediação. Esse tipo de financiamento não serve para tudo mas é sem dúvida um excelente caminho para inovação. Só os bancos é que não gostam muito dessa tendência, mas tenho certeza que eles vão se acostumar.

 Showrooming

Para encerrar, um último exemplo de como o consumidor, com a ajuda da internet e da tecnologia, assumiu as rédeas do mercado e influencia até grande varejistas off-line.

Junto com o boom do comércio eletrônico surgiram os comparadores de preços. Robôs que circulam pelos sites verificando e consolidando preços de um mesmo produto de diversas lojas em uma única página. De TVs a diárias de hotel há comparadores para tudo. Sopa no mel para os consumidores que não precisam mais bater perna atrás do melhor preço. Mas…

Vamos combinar que mesmo com todos os avanços na interface com o usuário, nas formas de mostrar o produto, no atendimento e principalmente nas necessárias recomendações de quem já comprou, quando você quer adquirir algo mais caro ou quando não tem certeza de que aquilo é exatamente o que você deseja, vai até uma loja física para ver, pegar, experimentar o produto para depois comprá-lo pelo melhor preço pela internet, certo? Isso se chama showrooming e tem deixado malucos os varejistas off-line há algum tempo. Quem não ficaria depois de comprar um ponto, pagar luvas, construir uma loja bacana, treinar vendedores, investir pesado para quê? Para o cliente ir lá olhar e depois comprar on-line na concorrência? Some-se a isso as entregas em uma hora, para o mesmo dia ou no máximo em dois dias que vem dominando o grande varejo on-line, principalemente nas grande cidades. A entrega, que sempre foi o calcanhar de aquiles do e-commerce, virou diferencial. Mais barato, frete grátis e rápido é uma fórmula complicada para o comércio tradicional competir.

AMZ x WALOs gráficos ao lado mostram bem as diferenças enormes entre os dois principais varejistas on-line e off-line do mundo. A Amazon cresce muito mais do que o Walmart, com muito menos empregados. Mas ainda é uma anã em faturamento comparada com o gigante do varejo off-line. Quanto tempo vai levar para que as duas operações sejam equivalentes?

Por isso não há outro jeito senão o varejo off-line se reinventar, se atualizar e propor uma experiência melhor, inclusive nos preços e nas margens, para fazer mudar de ideia aquele cliente que se propôs a sair de casa apenas para conferir um produto. Algumas áreas como passagens aéreas e hotéis sofrem mais do que outras, mas de comida pronta a cortinas sob medida, a disputa pela satisfação do cliente vai continuar nevegando entre o on-line e o off-line enquanto o varejo existir.

O e-commerce ainda representa uma pequena fatia do varejo como um todo mas minha aposta é que o pequeno varejo local, das miudezas, da satisfação e da necessidade imediatas vai se sair melhor nessa competição. Por isso é que já estamos vendo mudanças no perfil de grandes varejistas tradicionais ampliando o horário de funcionamento, oferecendo um mix de produtos mais enxuto, em mais lojas menores e com preços iguais aos on-line. Mais uma vez ganha o consumidor.

Inúmeras outras iniciativas inéditas ou que simplificam e tornam mais acessiveis e transparentes o acesso a produtos e serviços estão sendo criadas nesse momento. Em comum elas têm o consumidor muito longe de ser apenas o cliente. Na Nova Economia não foi ele que tomou as rédeas, elas lhe foram oferecidas de forma espontânea pelos novos negócios disruptivos viabilizados pela tecnologia.

Essas novas empresas entendem que não faz mais sentido privar o consumidor de consumir na hora e na quantidade que ele quer, que não faz mais sentido esperar que o governo defina novas regras nem muito menos que a velha economia, confortável na sua posição controladora, tome a iniciativa de mudar por vontade própria. Na Nova Economia o consumidor é muito mais parceiro da empresa e do fornecedor, pois se sente atendido em suas reais necessidades e pode assim dispor do seu dinheiro de forma mais livre e objetiva. Estamos apenas no começo de um caminho que vai mudar tudo o que sabemos sobre consumo, dinheiro, impostos e trabalho. Não veremos onde esse longo caminho vai terminar e estamos apenas dando os primeiros passos em direção a um destino que muda todo dia. Isso inegavelmente é um enorme privilégio.

No próximo artigo iremos tratar de como o Trabalho e sua remuneração estão mudando e os impactos que causam na nossa nova sociedade.

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Se você quiser levar a discussão sobre a Nova Economia e seus impactos na sociedade e nos negócios para um grupo, escola ou empresa, entre em contato: contato@setze.com.br.

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Imagens

  1. Photo credit Toban B Foter.com CC BY-NC
  2. (c) Disney
  3. Photo credit Rocío Lara Foter.com CC BY SA
  4. https://atlas.qz.com/

7 comentários sobre “A Nova Economia e o Novo Consumo

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