De Volta Para o Futuro do Entretenimento com o Vinil e o Papel

A indústria do entretenimento talvez tenha sido uma das que mais teve seus padrões alterados, quase vilipendiados pela tecnologia digital que tomou conta dessa área.

Desde venda de ingressos por financiamento coletivo a projeções holográficas pelo lado dos produtores de conteúdo até os novos modelos de streaming, assinatura e acesso a filmes, TV, música e livros oferecidos aos consumidores, quase nada mais é como antes. Mas mesmo com tantas mudanças parece que, por razões diferentes, alguns produtores e consumidores de livros e música não estão assim tão entusiasmados para trocar tudo por digital como acontece com vídeo e TV. Pior, tem quem trocou e se arrependeu, tem quem não quer trocar de jeito nenhum e tem quem fica num limbo, com o melhor e o pior de duas eras.

Se com o vídeo e a TV a viagem para o digital é sem volta – não se vê ninguém comprando TVs de tubo, ou que não sejam no mínimo HD, por exemplo –  no caso da música o que a gente vê não é um retorno ao passado mais recente quando sua distribuição era feita em CDs, mas a um passado remoto quando os discos de vinil dominavam as prateleiras e as rádios com seu som cheio de defeitos e por isso mesmo com muita personalidade. Depois de cair a praticamente zero em 2004, foram vendidos 13 milhões de discos de vinil em 2014, a mesma quantidade vendida em 1990. No mercado global o vinil representa impressionantes 2.4% das vendas. Nostalgia? Nada disso, posicionamento e marketing. Todos ganham.

Com os livros a coisa é bem diferente. Mais do que co-existir, livros de papel e e-books são no fundo concorrentes. Convivem em um mercado global altamente concentrado onde meia dúzia de grandes e antigas editoras e um grande distribuidor dividem o controle ao mesmo tempo em que lutam entre si na definição de um novo mercado digital que deve, segundo as editoras, ou não deve, segundo o distribuidor de e-books, seguir modelos desde sempre vigentes no mercado físico, de papel. Arqueologia das editoras? Visão desruptiva do distribuidor? Nada disso, aqui é cabo-de-guerra, briga por poder. Uma briga na qual há mais perdedores do que ganhadores.

No mercado de 360 milhões de dólares do vinil tem de tudo, de hitmakers como Taylor Swift que não pode deixar de estar em nenhum suporte, jurássicos do rock como Pink Floyd, além de novos e velhos artistas independentes e completos desconhecidos que lançam em vinil como foma de se posicionar contra a tecnologia, se alinhar a algo mais “puro” ou porque entendem que seu som fica melhor na bolacha preta. E são esses indies que movem o mercado pois dos 13 milhões de discos vendidos ano passado, apenas cerca de 400.000 foram dos top 10. 70% das vendas veio de um sem número de bandas e artistas de todos os tipos em tiragens mínimas.

Mesmo dominando amplamente o mercado com 80% das vendas, os livros de papel durante algum tempo sofreram com a expectativa de serem aniquilados pelos e-books, coisa que até agora não aconteceu, muito pelo contrário. Depois de um crescimento de 1.260% entre 2008 e 2010 as vendas de e-books atingiram seu máximo de mercado em 2014 e vêm caindo lentamente desde então.

A explicação do fenômeno é um espelho do limbo tecnológico que vivemos: a mesma geração que só conhece a música digital, prefere ler livros de papel, pelo menos por enquanto. Entendo que há dois principais responsáveis por isso: o modelo de negócio adotado por editoras e distribuidores e a onipresença dos smartphones e tablets.

Enquanto o vinil cresce sem canibalizar o “mercado formal” de música, sustentado por um nicho de público que tem toca-discos, prefere artistas indies e também consome música digital quando não está em casa, o livro de papel reina soberano e vai reinar ainda por muito tempo. Com medo de ficarem na mão de um único grande distribuidor de e-books, a Amazon, editoras adotaram a estratégia de praticamente igualar os preços dos livros digitais com os de papel, principalmente lançamentos, reduzindo muito o marketing de que e-books são bem mais baratos do que os livros de papel. Às vezes são, alguma vezes não. Precificação de e-book não é uma ciência exata. Muitas tentativas de modelo de negócios foram feitas, a maioria copiada da indústria da música digital que está mais avançada, mas nem por isso madura. O modelo de assinatura tipo all-you-can-read não fez as receitas decolarem nem criaram novos leitores porque as grandes editoras ainda não aderiram ao modelo, preferindo vender e-books da mesma forma que vendem books; um por um, como propriedade, não como direito de acesso ao conteúdo como oferecido nas assinaturas.

Ao contrário do que aconteceu com o vinil, livros de papel não se tornaram cool, tampouco perderam seu charme. É inegável que a experiência de ler um livro é infinitas vezes melhor do que ler um e-book, que quase nem capa tem. A situação piora quando vemos tanta gente com smartphones e tablets na mão lendo livros eletrônicos numa tela que pela iluminação e reflexos torna a experiência ainda pior. Convencer um jovem a comprar um e-reader com tela preto e branco, dedicado somente a leitura de textos, praticamente sem imagens e sem navegação na internet é uma tarefa dura. Por isso não me espanta que esses jovens que são digitais em quase tudo, em pelo século XXI prefiram carregar um maço de papel impresso do que outra traquitana eletrônica que não faz nada que o seu smartphone já não faça, e melhor. É uma boa justificativa. Se os e-books fossem bem mais baratos dos que os livros de papel, com certeza a situação atual seria diferente.

Preço não é problema para o disco de vinil. Ele quase não tem concorrência pois seu público paga por um produto muito além da música esculpida em sulcos no plástico. É uma compra quase ideológica, revolucionária, contra o establishment. Isso não tem preço. O livro de papel tem um concorrente criado pela tecnologia e adotado pelas mesmas editoras do papel além de inúmeras outras somente digitais. Com exceção dos livros de arte ou aqueles fortemente baseados em imagens, um romance bestseller como Harry Potter, o tipo de livro que sustenta o mercado, oferece no e-book exatamente o mesmo conteúdo do papel, sem a experiência do papel, com dificuldades para duas pessoas lerem ao mesmo tempo ou poder emprestar o livro depois de ler. O preço, que poderia fazer a balança pender para o lado do e-book, não entra nessa equação por opção das editoras. Olhando esse cenário amplo, a opção dos jovens pelo livro de papel faz todo sentido.

Seja pelo motivo que for, não é difícil dizer a razão dos discos de vinil e dos livros de papel terem recuperado um mercado que já parecia perdido. Talvez nem tudo na nova economia seja preço, acessibilidade ou modelo de negócio inovador, talvez estejamos tão cercados de tecnologia que esses dois produtos ainda sejam duas das poucas bóias ainda acessíveis do mundo analógico e o ser humano ainda precisa dele. Não acho que o vinil vai crescer muito mais do que já é nem que o livro de papel, em curto prazo, perca um share de mercado relevante. No longo prazo, com a evolução de tecnologias mas principalemente com mudanças nas mentalidades de editoras e distribuidores o mercado possa ser diferente.

Minha aposta é que esse fenômeno que recuperou o vinil e o papel é restrito a um momento esquizofrênico no qual gerações analógicas e digitais em diferentes níveis convivem, compartilhando valores, percepções, necessidades e experiências que transitam entre elas sem barreiras. Menos com o livro de papel e mais com o disco de vinil, penso ser inevitável que os dois sofram um pouco quando as gerações mais velhas forem perdendo presença no mercado e seus legados forem sendo diluídos até se tornarem nichos para atenderem não só os saudosos, mas principalmente os curiosos e os avessos à tecnologia que, ainda bem, sempre existirão.

Um comentário sobre “De Volta Para o Futuro do Entretenimento com o Vinil e o Papel

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s