Nem freemium nem premium, nova velha mídia vai de Prime

Monetizar a nova mídia on-line tem sido um dos grandes desafios da internet. Como fazer para que o consumidor de notícias no papel migre a carteira para uma plataforma na qual na maioria das vezes pode conseguir as mesmas notícias de graça?

De paywalls a restrição na quantidade de acessos, tudo vem sendo testado com maior ou menor sucesso. O New York Times tem liderado essas iniciativas e se mostrado bastante inovador na soluções propostas aos novos e velhos leitores.

Mas, como tem acontecido com cada vez maior frequência em diversas áreas, é de fora da indústria que surgem inovações que podem aproximar principalmente a velha mídia desse leitor que cada vez menos procura por notícias no papel.

Bezos no papel

Dois anos atrás Jeff Bezos, presidente da Amazon, comprou com seu fundo de investimentos o Washington Post, um dos mais tradicionais jornais de papel dos EUA num movimento que para muitos pareceu estranho. Mas o Bezos não dá ponto sem nó.

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Ontem a Amazon anunciou que irá incluir no pacote de produtos do seu Amazon Prime a assinatura de acesso ao conteúdo digital do jornal por meros US$ 3,99 adicionais por mês, com uma carência de seis meses. São US$ 48 por ano pelo acesso digital do Post para quem já paga a anuidade de US$ 99 do Prime. Para ter uma idéia do tamanho da oferta, o NYT cobra US$ 455 e o Wall Street Journal US$ 348. O próprio Post cobra de não membros do Prime US$ 195 anualmente.

Mas tem uma pegadinha: o acesso é à edição nacional e internacional do Post e não à edição local de Washington DC. Isso para não canibalizar as assinaturas locais enquanto amplia o alcance do periódico por um preço extremamente atraente para um jornal com a qualidade e confiabilidade do Post. Bom conteúdo tem sempre valor, a Amazon sabe disso e sabe vender esse valor.

Prime e freemium

Esse modelo de pagar uma mensalidade ou anuidade para ter acesso mesmo que pago a outros serviços é uma dos modelos comerciais que mais têm feito sentido no momento e o sucesso do Amazon Prime mostra por quê. A contrário do freemium, outro modelo bastante comum que oferece uma parte grátis e cobra por aditivos e complementos, com seu pacote de produtos o Prime consegue prender o assinante de uma forma que nenhum serviço freemium é capaz. Com exceção do frete grátis, todos os produtos oferecidos pelo Prime são digitais e consequentemente facilmente escaláveis. E não são poucos.

O Prime vem construindo um leque de serviços adicionais com música, filmes e séries de TV exclusivas, empréstimos de ebooks e o novo dash button que mesmo sem realizar lucro, são valorizadas por um assinante que acaba gastando em média o dobro do que o cliente comum em compras na loja, afinal, o frete é grátis! Então, além de gerar de US$2.5 a US$4Bi por ano com as assinaturas, os estimados 25 a 40 milhões de assinantes do Prime – a empresa não abre o numero real – são os melhores consumidores que o e-commerce da Amazon tem.

AMZ Prime Spend

Prime e mídia

Depois de música, livros e filmes, faltava ao Prime um componente que vem perdendo mercado mas que ainda é valorizado: notícias, e o Washington Post cai como uma luva na estratégia. Para o Post, ter acesso aos milhões de assinantes do Prime de graça é um sonho, vender mesmo que barato um conteúdo de qualidade que ele já produz e formata para o digital, outro. Fica difícil saber quem ganhou mais do que os usuários com a parceria.

outras iniciativas de grandes players digitais para salvar a mídia tradicional, mas nenhuma tão bem azeitada como essa, com tantos componentes ganha-ganha-ganha como essa que foi estruturado por alguém que tinha pouca ou nenhuma experiência no mundo da mídia e de veículos impressos na vida.

Nadar contra a maré que está levando os leitores de notícias para longe do papel e consequentemente longe da mídia tradicional é inútil. Querer replicar no digital modelos comerciais de sucesso no analógico é no mínimo tão míope quanto negar que conteúdo confiável e de qualidade é fácil de produzir. Com seu potente binóculo e seu bolso fundo, Bezos viu na tragédia da mídia tradicional uma grande oportunidade de tentar um modelo ainda inédito no mercado, que beneficia toda a cadeia envolvida e pode criar um novo momento para aqueles veículos que já tinham jogado a toalha ou que estavam resignados com as dificuldades que esse novo ambiente digital tinha trazido para suas empresas.

O importante nessa história toda não é ver a Amazon novamente inovando, isso acontece o tempo todo, o importante é ver alguém de fora da mídia tradicional gastando seu tempo, seus neurônios e seu dinheiro para fazer um trabalho que ela não foi capaz de fazer seja por miopia, soberba ou incompetência. O importante é ver alguém que na sua empresa sempre teve o foco na satisfação do consumidor tentar com essa mesma mentalidade melhorar a situação de uma indústria que parece ter parado no tempo olhando para o próprio umbigo e no fundo querendo que as coisas ficassem sempre do mesmo jeito.

Mas aí apareceu o Bezos.

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