O século XX ainda não terminou para as operadoras de celular

Quem me conhece sabe que trabalho perto das operadoras de celular há algum tempo. Desde 2001 para ser mais exato. Não tinha TIM Brasil, mal tinha Oi. Vivo e Claro não existiam. Eram dezenas de pequenas operadoras regionais. Entre 2001 e 2003 visitei 18 delas para apresentar minha agência de mobile marketing propondo um modelo de negócio de sucesso na Europa, EUA e até na Oceania. Dei com os burros n’água. Fui chamado de concorrente, operadora tentou tirar cliente meu, riram na minha cara.

OGlobo 081203 Informatica pag 26

O Globo 08/12/2003  Informatica pág 26

E olha que numa época quando o tráfego WAP era cobrado por minuto a R$ 0,31+impostos, o que eu pedia não era grande coisa. Minha demanda mais complexa era reverse billing para SMS. Mas questões técnicas insolúveis nas plataformas de tarifação muitas vezes inviabilizavam qualquer projeto mais inovador mesmo antes de entramos na discussão comercial.

Se não fosse pela boa vontade, visão e principalmente compaixão de alguns profissionais que encontrei e pela criatividade e flexibilidade que a agência tinha, não teríamos conseguido realizar o pouco que fizemos. Até inscrição no vestibular por SMS a gente fez.

Nesses anos todos trabalhando em três empresas de produtos e serviços mobile diretamente ligadas às operadoras, o famoso VAS, perdi a conta de quantas vezes produtos e ofertas inovadores foram sumariamente inviabilizados pelas operadoras por questões técnicas, de infra de rede, dados e tarifação, mas principalmente por questões comerciais e burocráticas. Perdi a conta de quantas vezes tentamos negociar shares para que um produto novo fosse comercialmente viável para todos os envolvidos. Perdi a conta de quantos produtos patrocinados, grátis para o consumidor, apresentei sem sucesso. “Aqui não é internet, onde tudo é grátis”, “nosso cliente está acostumado a pagar”, “quando é grátis o cliente perde a percepção de valor do nosso serviço” eram os principais argumentos que eu ouvia. Conto nos dedos de uma mão os projetos patrocinados que implementei em parceria com operadoras.

O que lá fora era padrão de mercado, aqui era comercial, técnica e regulatoriamente quase impossível. Claro que o problema não eram só as operadoras. O governo com sua mão grande e vista curta não ajudava nada. Mas as operadoras tampouco se mexiam muito para viabilizar uma indústria que bombava no resto do mundo. Mas aqui é Brasil e era tudo do jeito delas.

Claro que algumas barreiras foram rompidas, muito projetos bacanas foram implementados, ganhou-se algum dinheiro, criaram-se alguns problemas. Mas tudo com extrema dificuldade, pouca boa vontade e alguma sensação de que o que a operadora fazia no VAS era quase um favor. Algumas vezes nem acesso ao número do celular do cliente o parceiro tinha. Confiança entre parceiros não era o forte nessa época.

Ao mesmo tempo que não interessava para a operadora investir para criar um “mercado concorrente” ao da voz, dividir receitas provenientes de um só bolso que poderiam ser inteiramente dela e inovar de verdade na oferta de produtos e serviços que retivessem o cliente, o discurso de “não somos nem nunca seremos pipe” era o que mais se ouvia nos encontros do mercado. Miopia e esquizofrenia ou apenas um discurso dos que já viam o que estava por acontecer mas entendiam que se negassem com força conseguiriam reverter a situação?

Qual o resultado dessa estratégia? Até serviços como o de alerta de gol, tão antigo quanto o CDMA, hoje quem provê é uma terceira empresa, um canal de TV ou uma marca esportiva através de um aplicativo próprio. Grátis! Parceiro? Que nada. A operadora nem sabe que ele existe. O valor adicionado do antigo VAS fica todo com o provedor do serviço enquanto a operadora, como um bom pipe, fica com o pagamento pelo uso da rede feito pelo cliente. Cliente que amanhã poderá estar em outra operadora mas continuar usando o seu alerta de gol favorito.

Garanto que tem diretor de operadora se lembrando de reuniões com uns malucos com propostas ridículas que hoje são grandes produtos e fazem muito dinheiro bem longe das operadoras.

Aquela mão de ferro que tentava ditar o caminho do mercado exclusivamente de acordo com seus próprios interesses de curto prazo, hoje tenta impedir sua evolução junto a órgãos regulatórios que nem jurisdição sobre esse novo mercado têm. Aqui me refiro especificamente aos serviços de voz sobre dados do Whatsapp que está sendo contestado pelas operadoras que entendem o serviço como pirata. O governo não surpreende e segue o mesmo discurso.

Operadoras continuam brigando por voz pois é a única fonte de receitas que elas ainda dominam, exatamente como era no século XX.

É fácil falar agora sobre o Whatsapp? É. Mas o ponto não é o aplicativo que provavelmente seria criado de qualquer maneira, o ponto é a mentalidade avessa à inovação em serviços de valor agregado que sempre dominou as operadoras de celular independente da tecnologia. Elas simplesmente preferiram continuar penduradas na voz e agora estão pagando o preço por isso.

Quem sabe com as pancadas que estão levando dos OTTs, com a queda constante nas receitas de voz e com o cliente mais fiel ao app do que à operadora, elas entendam que pipe elas já são, que cooperação e parcerias de verdade são a chave para um novo momento. Que ganhariam mais investindo tempo e dinheiro não em advogados mas sim em inovação e que velocidade é importante para não perder as oportunidades que restam. Ainda dá tempo.

Um comentário sobre “O século XX ainda não terminou para as operadoras de celular

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s