Programação é o novo futebol (ou deveria ser)

Vivemos em um país onde a grande aspiração de ascenção social não passa pela educação, mas sim pelo futebol. Todo jovem de periferia, baixa renda ou com pouca oportunidade de acesso à escola tem como meta ser um grande jogador de futebol, ganhar muito dinheiro e comprar uma casa para os pais que acreditaram tanto nele.

Mas será que esses garotos sabem que 82% dos jogadores de futebol no Brasil ganham até dois salários mínimos e que apenas 2% ganham acima de 20 salários? Provavelmente não. Com certeza eles só sabem da vida glamurosa dos grandes jogadores que a imprensa publica diariamente. E vamos combinar que é difícil competir com esse glamour todo.

Ao mesmo tempo que sobra aluno nas escolinhas de futebol e sobra jogador frustrado com pais sem casa própria, falta mão de obra em áreas que na média pagam muito melhor do que qualquer esporte no Brasil. Em TI, por exemplo, onde um programador júnior pode começar uma carreira ganhando mais de R$ 2.000,00 e com perspectivas salariais e profissionais muito melhores e mais longas do que a de um jogador de futebol.

Mas vamos supor que o garoto é um gênio tanto jogando bola como na escola. Mesmo assim o argumento não se sustenta já que há muitos mais milionários fora do esporte do que dentro dele. Quer dizer, num processo lógico, escolher jogar futebol para ganhar dinheiro ao invés de programação só faz sentido num país onde há poucas oportunidades profissionais e muitos times de futebol pagando muito bem. Ou em um país que não pensa no futuro, apenas no agora.

O selo “Brasil 2014. A Pátria de Chuteiras” foi criado a partir da união de dois dos elementos que mais caracterizam o Brasil – o verde e amarelo e o futebol -, o selo apresenta a imagem de brasileiros em ação, praticando o esporte que consagrou o país no mundo. A ilustração também visa transmitir a sensação de entusiasmo e união.

O selo “Brasil 2014. A Pátria de Chuteiras” foi criado a partir da união de dois dos elementos que mais caracterizam o Brasil – o verde e amarelo e o futebol -, o selo apresenta a imagem de brasileiros em ação, praticando o esporte que consagrou o país no mundo. A ilustração também visa transmitir a sensação de entusiasmo e união.

Como sempre acontece onde o governo falha na provisão de serviços básicos e na preparação do país para o futuro, surgem oportunidades que são abraçadas por empresas que muitas vezes visam “apenas” sua própria sobrevivência. No caso da falta de programadores a escassez não é só no Brasil, onde ano passado havia 200.000 vagas abertas nessa área, mas também em países como EUA, França e Inglaterra onde a falta desse tipo de skill acontece há mais tempo.

Aqui o Code Club Brasil, iniciativa de uma ONG inglesa, oferece uma plataforma para que programadores ensinem seu ofício aos jovens presencialmente de forma voluntária em escolas e bibliotecas por exemplo.

Também no Brasil ano passado duas grandes empresas de TI iniciaram o “Ano do Código – Vem programar!” baseado em uma iniciativa do site americano CodeAcademy, que disponibiliza aulas e exercícios gratuitos e online visando apresentar e ensinar programação a jovens interessados em tecnologia. Precisaram fazer isso para tentar diminuir o tempo médio de seis meses para encontrar e contratar profissionais qualificados para expandir seus negócios.

la-piscine-durera-1-moisNa França, o bilionário Xavier Niel, dono do jornal Le Monde e de outros negócios na área de tecnologia e celulares, tirou 50 milhões de Euro do bolso para fundar a 42, uma escola privada, gratuita. que ensina jovens a programar.

Sem pedir dos alunos nenhum tipo de formação prévia mas também sem oferecer nenhum título profissional após a graduação, a 42 que tampouco é certificada pelo governo Francês, tem um processo seletivo duro e muito concorrido e pretende formar 1.000 novos programadores por ano em um curso de três anos. A primeira turma se forma em 2016.

Novos modelos educacionais como a 42 sofrem tanto ou mais que novos modelos comerciais como Uber e AirBnB quando o assunto é regulamentação, quebra de paradigmas e monopólios. Se os governos ainda não sabem como tratar esse tipo de iniciativas, o que se espera é que pelo menos não atrapalhe o surgimento e o desenvolvimento delas, frutos da miopia ou incapacidade do governo em atender demandas presentes e latentes do mercado e da sociedade.

E no país berço do futebol a emissora de TV estatal BBC está reeditando uma iniciativa sua dos anos 80 e distribuindo gratuitamente 1 milhão de mini-computadores como o da imagem abaixo à crianças em idade escolar. A máquina é bem simples mas possui sensores de movimento, bluetooth e precisa ser conectada a um PC para ser programada.

BBC-Micro-Bit

Como parte do programa a emissora vai destacar habilidades de programação em séries populares como Doctor Who e produzir uma série sobre o desenvolvimento do game Grand Theft Auto, o famoso GTA, febre entre os gamers no mundo todo. A emissora entende que se mesmo apenas uma pequena parte dos jovens que tomarem contato com programação através do projeto se dedicarem a isso profissionalmente, poderão ajudar a resolver o problema de escassez de mão de obra na área por lá.

Numa iniciativa mais humilde mas igualmente importante, a RBS e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho selecionaram vinte alunos da rede estadual do Rio Grande do Sul para participar do Go Code, um curso de quase oito meses onde eles aprenderão linguagens de programação, formação pessoal, noções de mercado e construção de currículo.

Todas essas iniciativas não são apenas para criar uma mão de obra numa área específica e com demanda crescente mas entende-se que aprender a lógica de programação ajuda a pensar de forma mais estruturada e assim resolver problemas e construir hipóteses em qualquer área. Até na pequena área.

Com tudo isso fica óbvio que oportunidades e boas idéias não faltam. Tampouco falta gente com dinheiro e disposição de colocá-las em prática simplesmente porque acreditam que é o certo, o que deve ser feito. A parte mais difícil é competir com os pouquíssimos Neymares e Cristianos Ronaldos que se tornaram ídolos pelo esporte e um exemplo que na enorme maioria das vezes é apenas uma miragem. Miragem essa muitas vezes vendida como realidade.

3 comentários sobre “Programação é o novo futebol (ou deveria ser)

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