Negócios disruptivos também na filantropia

Dois assuntos recorrentes aqui são os novos modelos de negócios que a tecnologia faz surgir e os celulares como elemento de combate à pobreza, principalmente na África.

Pois eles dois acabam de convergir na Give Directly uma startup do Vale do Silício na Califórnia que se propõe a fazer uma coisa bem simples: enviar dinheiro diretamente aos mais pobres sem exigir nada em troca pois entende que cada um conhece melhor do que ninguém as suas prioridades.

A Give Directly foi fundada em 2011 e só existe graças a revolução que o mobile banking causou na África sub-saariana onde uma pessoa  tem 60 vezes mais chances do que um europeu  de ter uma conta corrente mobile, oferecida pelas próprias operadoras de telefonia já que o sistema bancário local é bastante precário.  No Quênia por exemplo a penetração de celulares é de 78% da população.

Como funciona. A Give Directly transfere eletronicamente US$ 1.000 para famílias extremamente pobres selecionadas segundo um critério próprio baseado em dados públicos sobre pobreza. Isso equivale ao orçamento de um ano dessas famílias que em média vivem com US$ 0,65 por dia.

O critério é bem simples, famílias que vivam e casas com telhado de palha e piso de terra batida são os primeiros beneficiados pois este é um indicador claro de pobreza de fácil entendimento para a população e para posterior verificação da melhora na qualidade de vida dos beneficiados.

Os beneficiados pela doação recebem um SMS e retiram o dinheiro em locais definidos pela empresa. Se a família não possui um celular, a Give Directly ajuda na compra de um usando uma parte do dinheiro doado. Um levantamento mostra que os destinatários levam 31 minutos em média para chegar até o local onde podem sacar o dinheiro. Depois a organização liga para o destinatário para verificar se ele recebeu o dinheiro, resolve qualquer pendência e informa um número de telefone caso ele precise de ajuda.

Desde a fundação a Give Directly já distribuiu US$ 15 milhões no Quênia e em Uganda.

Distribuir o dinheiro eletronicamente e diretamente aos destinatário reduz não só os custos financeiros como também as oportunidades de corrupção. A Give Directly gasta apenas 9% do seus fundos para cobrir as despesas operacionais.

De onde vem o dinheiro. Três fundações são as principais responsáveis pelo financiamento da Give Directly; a Give Well, a Good Ventures e a Google.org,  mas mais de 7.000 pessoas e empresas já colaboraram com dinheiro para a organização.

Atrair financiadores e parceiros de peso só foi possível aplicando na na Give Directly os conceitos de satisfação do cliente, compromisso de total transparência e profundo monitoramento da destinação do dinheiro tão comuns na iniciativa privada mas pouco usuais no universo da ONGs que muitas vezes se transformam em um negócio no qual o único objetivo é cuidar da sua própria sobrevivência.

Resultados. Estudos independentes mostram que  depois de um ano houve um aumento de 34%  nos rendimentos e de 52% nos ativos das famílias beneficiadas pelo programa que gastaram mais em educação, saúde, alimentação, bens e atividades sociais. Não houve aumento no consumo de alcool ou cigarros.

Bem diferente de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, além de não usar dinheiro público a proposta de extrema transparência da Give Directly quer não só mudar vidas mas também mudar a percepção que muitos tem de que dinheiro doado evapora no processo e muito pouco chega nas mãos dos necessitados. A prova disso é que os US$ 5.5 milhões arrecadados em 2013 irão crescer para cerca de US$ 45 milhões em 2015. A Give Directly está criando um novo paradigma não só em distribuição de dinheiro com também na operação das ONGs.

É fantástico assistir quando  dois mundos colidem e criam não só novos negócios como também novas oportunidades de vida para aqueles têm pouco mais do que acesso à tecnologia. Esperamos ver outros exemplos como este.

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